Vida e morte Teodora

O Tewodros que conheci não parecia em nada com o famoso imperador Tewodros II, a referência de seus pais quando escolheram o nome. O pai da Etiópia moderna é reconhecido ainda como o sujeito que conseguiu unificar os povos da região e formar uma nação entre os anos de 1855 e 1868. Dizia-se arrogantemente “descendente de David e Salomão”, “eleito por Deus” e coisa e tal. Pensava ser o último biscoito.

O meu contemporâneo tinha apenas 21 anos. Magro, alto, usando uma camiseta de futebol já meio batida, Teddy – como ele mesmo se apelidava – carregava na mão um caderninho amassado e tinha uma pequena mochila nas costas. Estava sorridente. Um sorriso nervoso, apreensivo. Como uma criança órfã, posava entre outros guias certamente mais experientes, para ser escolhido pelo nosso grupo, que se formou espontaneamente num hotel – dois ingleses, uma guatemalteca, um coreano, um alemão e eu.

A cena se passava na cidade de Debark, ao noroeste do país, onde os turistas que desejam se aventurar nas montanhas Simien precisam escolher seu guia em uma agência do governo, o que estranhamente me fez lembrar do programa “Fantasia”, onde as mulheres enfileiradas precisavam ser escolhidas nas brincadeiras. A Carla Perez ali era o oficial do Ministério de Turismo que aguardava impaciente nossa resposta, e que provavelmente também não saberia soletrar “Escola”.

simiens

Sentimos o nervosismo de Teddy e sua ansiedade em ser o escolhido, não por Deus, mas por nós, turistas. Falava em um inglês mais rápido que seu pensamento, o que o deixava ininteligível por alguns segundos. De qualquer maneira, dava para sentir a sua intimidade com o lugar: ele tinha nascido em um dos platôs entre as montanhas e, lá de cima, sempre apontava onde ficava seu vilarejo com orgulho. O caderninho, ele nos mostrou, usava para anotar novas palavras que ia aprendendo em inglês. Suas explicações eram limitadas e o grupo, por vezes, filtrava suas tergiversações. “Tornei-me guia há apenas 5 meses e ainda preciso aprender muito”, defendia-se. Mesmo com algumas falhas na logística e muita insegurança, que poderiam ter acabado com a paciência de alguns, mostrava-se esforçado.

Tive problemas com a altitude. A 4 mil metros de altura, já no terceiro dia de caminhada, achava que não conseguiria terminar, mas não tinha outra saída senão ir até o fim. “Não há mais estradas no caminho”, recebi a informação não muito animadora. Teddy me ajudou a levar a mochila por um tempo. Seriam 20 quilômetros no último dia, com sol quente e noite congelante, com inúmeras subidas e descidas nos cânions que inundam a reserva. Foram, talvez, suas falhas e sua insegurança que nos cativaram. O grupo sentia que, sem nenhuma prepotência, sem ser um “escolhido de Deus”, Teddy era o sujeito certo para a viagem certa.

Tewodros II, o imperador, cobrou dos britânicos ajuda econômica e militar diversas vezes. Não obtendo resposta, disse ser superior ao Império Britânico, prendeu cidadãos europeus e sua arrogância, quem diria, foi a causa de sua morte. Suicidou-se com uma pistola pouco antes das tropas da rainha terem chegado ao seu palácio, dizimando toda sua tropa, contando ainda com a ajuda de chefes locais que discordavam de suas práticas cruéis.

O Tewodros contemporâneo, o carismático Teddy, veio de uma família que sobreviveu a guerras, a uma ditadura comunista cruel e a secas históricas que derrubaram uma quantidade inimaginável de corpos pela Etiópia. O que quer é viver como guia turístico mesmo, aproveitando a quantidade cada vez maior de gente de fora que vem ao país. Sonha em ter dinheiro suficiente para poder pagar um dote e se casar, mas acha complicado. Também sonha em morar na França. “Mesmo não sabendo o que tem lá, deve ser bom, né?”, comentou.

Em uma das conversas, disse que quer ter seu próprio negócio e que perde muito com intermediários. Ofereci-me então para fazer um site, além de um pequeno guia do que ele precisa falar as seus clientes, incluindo também nomes dos animais da região em outras línguas. O site é simples, feito no WordPress, mas é algo raro para pessoas como ele e um diferencial para que se comunique com gente de fora. Ele não acreditava na possibilidade de ter um site assim, tão facilmente. Queria pagar de qualquer maneira. Eu disse que um “obrigado” era o bastante. Estava feliz por ele ter conseguido sair do vilarejo e passar na prova para ser guia. Daí, a bonita mensagem que recebi na semana passada.

Portanto, acesse o site e conheça as montanhas Simien. E se for a Etiópia, conte com o Teddy.

siteteddy

 

3 comentários sobre “Vida e morte Teodora

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