A linha invisível entre Etiópia e Djibouti

Leitura: 7 minutos. Senta que lá vem a história.

Ao chegar em Dire Dawa, leste da Etiópia, ouvi a notícia de que o trem que leva ao Djibouti tinha sido reativado. Não funcionava todos os dias da semana, mas era uma opção boa para quem não quer enfrentar os solavancos de um ônibus atravessando o deserto.

Uma jornada que podia levar de 12 a 20 horas dependendo das paradas e procedimentos na fronteira. “Se o trem não tiver nenhum problema, você pode chegar lá às 18h”, me avisava o vendedor do bilhete, radiante. “Sai às 3 horas da manhã”, completou.

A cidade estava sem luz. O hotel não tinha mais água. Tomei um banho de cuia às escuras. Uma ratazana atravessava a luz amarela projetada pelas velas no chão do hotel. Chovia um pouco lá fora. Resolvi não sair para comer e dormi cedo. Às 2h30, levantei-me depressa, deixei as chaves na bancada e fui para a estação.

Não havia ninguém.

Com poucas luzes ao redor, saí perguntando sobre o trem a vendedores ambulantes. Apontaram-me uma direção, fui andando-barra-correndo. Um outro sujeito, chamou-me a atenção: “é aqui nesse portão, mas ele já partiu”. Ouvia-se ao fundo o som de buzinas e sirenes muito altas. Comecei a falar que tinham me avisado sobre um horário errado. Foram cinco minutos de espera e tensão em frente a um portão de ferro azul, de onde entravam e saíam agentes de segurança. Continuavam, no entanto, pedindo para eu esperar com as mochilas nas costas. Depois, lanternas apontando para o meu rosto, depois “entra, entra, ainda dá tempo”, depois uma senhora abria minha mochila e revistava tudo. Depois eu a ajudava. Estávamos os dois com pressa. Levou-me rapidamente para uma das portas abertas e, imediatamente após minha entrada, o trem partiu.

Ainda com as mochilas semi-abertas, comecei a procurar um lugar para sentar. Os bancos eram de madeira. Estava escuro e o vento era frio. Via os semblantes cansados de algumas senhoras com muitas sacolas. Usavam lanternas para rearrumar grandes sacos de grãos e tecidos. Arranjei um banco e sentei-me de frente para uma delas. Magra, velha, com o corpo extremamente flexível, dobrava-se em seu assento como uma ginasta, puxando seus pertences, mochilas, bebendo água, passando produtos para outras pessoas. No escuro, ela apontava onde deveria posicionar minha mochila de modo que pudesse me deitar com o pé apoiado. Já não entendia nem reconhecia nenhuma língua das pessoas que falavam comigo. Deveria ser somali, pensei. Arrisquei um pouco de francês, sem efeito.

Dormi em um banco duro de madeira. O trem andava muito devagar.

Entre Etiópia e Djibouti.

Entre Etiópia e Djibouti (foto: Gustavo Borges, Etiópia, 2014)

Ao amanhecer, lutei para dormir mais um pouco, mas a vida dentro do vagão voltava ao normal. O copioso barulho dos trilhos dava lugar ao som dos vivos. Sentia fome. O trem parava em algumas estações, ainda na Etiópia. Pessoas dos vilarejos entravam correndo, vendendo pedaços inteiros de bode, frangos e espaguete em sacolas, ao molho de tomate. Os passageiros comiam o espaguete com as mãos. Ninguém no vagão comprou pedaços de bode, o que deixou a cena um pouco menos medieval. Senti ânsia de vômito. A senhora da minha frente comunicava-se comigo por gestos e entendi que estava preocupada pelo fato de não comer nada. O apetite era zero.

Rapazes novos, lá pelos seus 18 anos, andavam de um lado ao outro. Desciam a cada vilarejo e pulavam de volta. Queria entender do que falavam tão alto. Fui ao banheiro e um grupo me bloqueou pedindo que eu fosse a outro, parecia estar ocupado. Uma briga começou entre dois grupos. Um deles puxou uma garrafa de vidro, ameaçando quebrar na cabeça do inimigo. O vagão berrava. Mulheres puxavam os dois protagonistas. Curioso, insisti no francês. Uma mulher levantou-se e explicou brevemente: “ele pegou o lugar do outro”. As explicações que recebia não faziam muito sentido.

O trem parou na fronteira, essa linha invisível que faz os corpos entrarem em convulsão. Depois da burocracia no lado etíope, nos dirigimos para o Djibouti, a ex-Somália Francesa. As pessoas me ajudavam com o que não entendia, apontando os caminhos. Fazia calor e o cenário era de deserto. As vacas sumiram. Agora os figurantes eram camelos. Passei por um corredor que levava ao escritório dos oficiais para o carimbo de entrada no país. Não encontrava meu certificado de vacinação e me pediram para esperar em outro canto. De onde estava, dava pra ver dois ginásios lotados. Policiais os observavam e vez ou outra entravam e saíam das portas de ferro engradadas, rodopiando grandes molhos de chaves no ar. Pareciam prisões. Eram prisões. Ao abrir uma das portas, um homem de camiseta branca, bem magro e ágil corria em direção ao nada. Um minuto depois, policiais o trouxeram de volta. Alguns riam sarcasticamente. O rapaz foi algemado e devolvido à cela. Chamaram-me e disseram que não poderia entrar sem o comprovante de vacinação de febre amarela. Expliquei que deveria ter esquecido do outro lado da fronteira, na saída da Etiópia. Eles disseram que poderia pagar uma “taxa”. Cansado, falei que não aceitaria pagar nenhuma taxa. “Por quê?” – um deles, perguntou em desafio. Comecei a falar alto para que outros pudessem ouvir. Não pagaria suborno e que, se quisessem, eu voltava para a Etiópia. Estava no meio do deserto, cansado e com fome, e essas palavras me soavam absurdas à medida que eram projetadas no vento. Não havia qualquer raciocínio ali. “Glicose, glicose”, o cérebro clamava. O oficial pediu minha calma e me liberou dessa exigência. Ao devolverem meu passaporte, encontrei o documento entre duas páginas. Chamei um deles, o mais exaltado, mostrei o comprovante e saí silencioso, num movimento dramático e novelesco.

Insisti para me deixarem passar para o outro lado, onde via alguns barracos. Precisava comprar algo para comer. Vinte e quatro horas depois de meu último lanche, devorei como um mendigo dois bolinhos “Ana Maria” e um pacote de biscoitos.

Agora o clima no vagão estava incrivelmente mais sombrio. Sorri e agradeci a sei-lá-quem por essa experiência. Pessoas corriam a cada parada. Já anoitecia quando paramos há poucos quilômetros da cidade, à frente de uma alfândega. Policiais entravam e revistavam cada pessoa. Pediam às mulheres que tirassem suas burcas. Algumas resistiam, mas os movimentos dos oficiais assustavam e logo elas desistiam. Um deles batia com um cassetete na porta do trem, fazendo um barulho ensurdecedor. Todos foram colocados do lado de fora e esperaram, sentados na areia ou em cima de pedras, a devassa dentro do trem. Armados com metralhadoras penduradas no ombro e apontando as lanternas para todos os cantos e buracos no teto e chão, reviravam tudo lá dentro. Depois, voltamos ao trem. Esperamos por mais duas horas. Do lado de fora, uma caminhonete era enchida com produtos que pareciam roupas enroladas. Um sujeito foi levado algemado.

Consumo de chat em Harar.

Consumo de chat nas ruas de Harar, Etiópia. Foto de Swiatoslaw Wojtkowiak (Flickr).

Já chegando perto da capital, os passageiros iam ajeitando suas mercadorias restantes. Abriam fundos falsos no piso, retirando quantidades enormes de folhas enroladas como grandes charutos. Eram folhas de chat (no Djibouti, khat), uma droga levemente alucinógena e excitante muito usada na Etiópia, Djibouti, Somália e Iêmen – inclusive legalizada. O tráfico de chat acontecia porque, no Djibouti, seu preço é muito maior, com altas taxas do governo. As mulheres se preparavam colocando rolos ao redor do corpo e os escondendo em suas burcas. Algumas mercadorias eram jogadas quando o trem parava. Havia gente do lado de fora. Em uma das paradas, pediram-me que eu fechasse minha janela rapidamente. Escutávamos um barulho estranho. O trem, parado, estava sendo apedrejado. Algumas pessoas se abaixavam. As janelas eram meras chapas de ferro, o que deixava o interior do vagão apenas iluminado por um feixe de luz alaranjada, provavelmente de um poste de rua.

O trem, finalmente, prosseguiu viagem em silêncio por alguns minutos. A lua cheia prateava a aridez da paisagem. Um senhor já bem velho, na ponta do comboio, começou a cantar sozinho. Outros ao redor começaram a segui-lo e, em pouco tempo, todos batiam palmas e cantavam juntos. Um verdadeiro DJ sabe escolher a música certa na hora certa. Chegava, assim, depois de 20 horas, à cidade de Djibouti.

3 comentários sobre “A linha invisível entre Etiópia e Djibouti

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