Torre de Babel

Tempo de leitura: 6 minutos. Eu sei que você consegue.

No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo de falar. Saindo os homens do Oriente, encontra­ram uma pla­nície em Sine­ar e ali se fixaram. Disseram uns aos outros: “Vamos fazer tijolos e queimá-los bem”. Usavam tijolos em lugar de pedras, e piche em vez de argamassa. Depois disseram: “Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso ­e não seremos espalhados pela face da terra”. – Gênesis 11

Ajourd’hui, Djibouti, 2014

Você está sentado trabalhando na recepção de um hotel, na cidade de Djibouti. Passa um dos estrangeiros, vira o torso em sua direção, mas continua andando. Você vê a cena em câmera lenta. O rosto se aperta num sorriso falso, os olhos diminuem, as bochechas se inflamam e a boca começa a se abrir. Um sopro imperceptível passa leve e veloz pela garganta, esbarrando em pequenas e finas cordas, chegam a uma cavidade escura, úmida e instável, e, por fim, se debate à presença de um músculo flexível e furioso. Um som vem de lá. A mão estendida no ar, um aceno de Miss Universo e… “Hojeeee!!!”, diz o turista entusiasmado e confiante, que sai rapidamente pela porta do hotel. Você espera por alguns milissegundos uma continuação. “Hoje o quê?”, pensa. O dia continua. O tal turista mistura bonjour com aujourd’hui. Andando, já distante do hotel, se dá conta do erro. Ri e continua o caminho.

Homens retiram âncora do mar, em Djibouti (Golfo de Tadjoura, Mar Vermelho)

Golfo de Tadjoura, Mar Vermelho, Djibouti. Foto: Gustavo Borges, Djibouti, 2014.

Mr. Muito Bem, Geórgia, 2014

A senhora da casa fazia um belo café da manhã para o único visitante no momento. Uma salada picante com maionese e vinagre, gordas batatas fritas, pães, manteiga, geleia, iogurte que acabava de ficar pronto. Ah, chá! “Querida, pode pegar o leite lá fora pra mim?”, pedia à sua irmã. Seu marido tinha saído para beber pela manhã, mais uma vez, e ela dava conta do recado sozinha. “Quero ver no verão, quando isso lotar de gente”, pensava e sofria antecipadamente. O visitante parece interessado em conversar, mas nenhum dos dois conseguem trocar muitas palavras. Está descabelado, parece confuso depois de acordar. A língua nativa da senhora é svan, idioma só usado nas montanhas de Svaneti, norte da Geórgia, e na Abecásia, zona independente por enquanto, mas que era da Geórgia. Sabe também georgiano e um pouco de russo, que passa a ser a língua franca entre os dois.

– Bom dia. Доброе утро.

– Bom dia. Доброе утро.

– Como está? Как дела?

– Bem, muito bem, obrigado. Очень хорошо, спасибо.

– Esperar. Leite. Vaca. Подождите. Молоко. Корова.

– Ah, ok, ok. Sem problema. Хорошо, хорошо, непроблемa.

A senhora volta com o leite.

– Xícara – aponta o visitante para o objeto, rindo e coçando a cabeça, como uma criança que aprende sua língua pela repetição. Чашка

– Que bom! – reponde ela, sorrindo. Это хорошо!

– Eu não esqueci tudo – termina. Я не забыл все.

A senhora ajeita a toalha da mesa, sorri em despedida e vai andando em direção à cozinha. Para um momento, vira-se para a trás sem redirecionar os pés.

– Qual seu nome? Как тебя зовут?

– Muito bem. Очень хорошо.

– Seu nome? тебя зовут?

– Sim, está tudo bem. Да, все хорошо.

– Hahahahah. Xaxaxax

– Hahahahah. Xaxaxax

– Mr. Muito Bem, agora esse é seu nome. Мистер очень хорошо, сейчас тебя зовут.

– Hahaha, Gustavo, Gustavo. Xaxaxax, Густаво, Густаво.

– Não, agora… Mr. Muito Bem*. Нет, сейчас… Мистер очень хорошо.

*Mister Otchen Raraxô.

Ushguli, com suas torres medievais e montanhas com mais de 5.000 metros de altura. Foto: Gustavo Borges, Ushguli, Geórgia, 2014.

Ushguli, com suas torres medievais e montanhas com mais de 5.000 metros de altura. Foto: Gustavo Borges, Ushguli, Geórgia, 2014.

O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam constru­indo. E disse o Senhor: “Eles são um só povo e falam uma só língua, e come­çaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer­. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros”. – Gênesis 11

Deixa a colher, Turquia, 2014

– Mãe, repeat after me: “te, che, cu, ler”.

– Te, che, cu, ler. Que que é?

– Aeeee, até que enfim, saiu. É obrigado.

– Só que esse “cu” tem trema, então soa um pouco como um “i”, mas deixa pra lá.

– Te, che, cü, ler. Te, che, cu, ler. Te, che, cu, ler. Te, che, cu, ler.

– Tá bom, mãe, já deu.

– Te, che, cu, ler. Gente, não vou lembrar disso nunca.

– Fica repetindo então.

– Te, che, cu, ler. Te, che, cu, ler…

– Internamente, mãe.

– Ah! Deixa a colher, deixa a colher, te-che-cu-ler.

– Hahahahah, perfeito. Tentae.

O garçom se aproxima. A mãe está ansiosa, esfrega as mãos. O olhar do filho diz “anda, anda, você consegue”. Ela espera o homem debruçar-se sobre a mesa e por os pratos e então: “deixa a colher”.

O homem acena com a cabeça em reverência, sem responder, com total indiferença à tímida voz da mãe. Os dois não sabem se deu certo.

Mãe em Istambul, Turquia.

Visita. Foto: Gustavo Borges, Istambul, Turquia, 2014.

Pedindo um Sequestro, Índia, 2008

Estamos em uma praça bem central, em Nova Delhi. Há redes de restaurantes americanas ao redor, dessas que fazem hambúrgueres, com carne de vaca mesmo. Os preços não são de Índia, são de Estados Unidos, Europa. Uma ilha para expatriados.

O turista brasileiro cruza a praça em busca de um almoço ocidental, depois de quase 30 dias em que só comia da deliciosa culinária indiana. “Agora é hora de um McDonalds”, falou consigo mesmo, certo de que as vacas ao redor não o entenderiam. E sim, havia um McDonalds, mas sem carne de vaca. Não importava. Precisava daquela gordura, da maionese, aquele molho com gosto de plástico, picles, e algo com uma crosta frita ao redor. Algo que pudesse causar problemas de coração no futuro. Podia ser de legumes, sem problema, mas fritos. Encontrou um McChicken para sua supresa. Que felicidade. Vai de chicken mesmo.

Comeu como um mendigo. Sujo de maionese, percebeu que não tinha guardanapo. Levanta-se pensando que sua mochila poderia ser roubada, mas mesmo assim, levanta-se pensando que sua mochila poderia não ser roubada também. Vai em direção ao caixa. Lá vai ele, andando com graciosidade, desviando-se entre as mesas apertadas. O caixa já o olha de longe com expectativa de sundae ou uma casquinha.

– Um sequestro, por favor. A kidnap, please.

– Oi? What?

O trabalho pode ser chato, copioso, mas esses turistas dão uma felicidade quando trocam as palavras. “É coisa linda de deus”, pensou em baianês, o indiano que olhava ainda para o jovem a sua frente.

– Por sequestro você quer dizer guardanapo, certo? By kidnap you mean napkin, right?

– Isso – explodia em gargalhadas o McDonalds inteiro – guardanapo! That’s it, napkin!

– Guar-da-na-po. Nap-kin

– Guar-da-na-po, se-ques-tro, tudo a mesma coisa! Nap-kin, kid-nap, all the same!

Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade. Por isso foi chamada Babel, porque ali o Senhor confundiu a língua de todo o mun­do. Dali o Senhor os espalhou por toda a terra. – Gênesis, 11

Mais tarde o viajante perceberia que o pedido não era tão absurdo assim.

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