Berbera

Berbera. Nome exótico esse. Ber-be-ra. Lembra especiarias, tecidos, mirra. Homens vão e voltam das suas embarcações, desembarcam grandes caixas acompanhadas de ratos. Alguns se dedicam a pesar os produtos à beira do porto. Berram, negociam, brigam, às vezes lutam entre si e sangram e são calados sempre pelo barulho do mar ao anoitecer.

Berbera, em 1896A foto data de 1896, está no arquivo do Field Museum, em Chicago. Nome da expedição: Africa Expedition; participantes: D.G. Elliot and Carl Akeley; motivo da viagem: zoologia mamífera. Material original: lâmina colorida a mão.

Uma foto hoje não sai diferente.

Berbera. Parece que enquanto o resto do mundo se transformava em hoje, aqui o tempo decidiu ficar pra trás, pirraçou, e o vilarejo dormiu. Que nada! Berbera foi um porto movimentado desde a antiguidade, ali de frente pra Arábia, basta atravessar alguns quilômetros de mar, o golfo de Aden.

Um périplo é um documento manuscrito com o registro de uma viagem.

“(…) uma enseada aberta, protegida por um cabo esticando-se a leste. Aqui os nativos são mais pacíficos. São importados para este lugar coisas que já mencionei antes, além de muitas túnicas, mantos vindos de Arsinoe, costurados e pintados; copos de bebida, folhas de cobre macio em pequena quantidade, ferro e ouro e moedas de prata, não muito. São exportados a partir daqui, mirra, um pouco de incenso (…), canela dura, duaca [?], copal indiano [resina petrificada, âmbar] e macir [casca de árvore aromática], que são importados para a Arábia; e escravos, mas raramente.”

– Périplo do Mar Eritreu, 8º capítulo, sec. I (greco-romano)

De Hargeisa, a capital da Somalilândia, tomei uma van que levava entre de 2 a 3 horas até a vila de pescadores. Sentei-me ao lado de uma senhora já nos seus 70 anos, era o que aparentava. Imediatamente levantou-se, puxando sua vizinha, bem mais nova, para o meu lado. A garota ria nervosa enquanto a velha falava. A van inteira ria histericamente. Havia praticamente só mulheres e tagarelavam entre si. Escangalhavam-se. De vez em quando olhavam para mim e para a menina, que não devia ter mais de 18 de anos. Queriam casá-la comigo, avisou-me o motorista, que falava um pouco de inglês. No caminho, soldados queriam que eu retornasse a Hargeisa. “Você obteve permissão do ministério? Estrangeiros não são permitidos nessa região sem acompanhamento de alguém do exército”, diziam. Uma moça girou para mim, dentro do carro e disse qualquer coisa. O motorista traduziu: “podem acontecer sequestros de turistas”.

“As coisas passam sem se aproximar
Do caminho que se olha dessa janela
As coisas passam sem saber passar,
Passam as curvas, passam as chuvas que eu vou lembrar

Passam sem se aproximar,
Paradas, paradas,
Passam sem olhar pra cá,
Paradas, paradas”

Nina Becker, em Janela

Finalmente estava em Berbera, ainda solteiro. No caminho até encontrar um hotel, era parado por pessoas curiosas: “O que você faz aqui? Brasil? Meu deus! Açúcar, arroz, world cup!“. Era o primeiro lugar em que reconheciam meu país por exportar açúcar e arroz e não somente pelo futebol. Davam-me as boas-vindas como quem avisasse “ei, aqui é um lugar perdido no tempo e no espaço, você chegou alguns séculos atrasado”. Conjecturavam sobre a minha “missão” na terra deles. Riam muito, têm um humor rápido. “Pode falar, você é um espião ou da ONU ou do Al-Shabaab“. Sou um ET somente.

Durante o período de dominação portuguesa no Mar Vermelho, a cidade foi saqueada, em 1518, por Antônio de Saldanha. Em 1546, foi a vez do Império Otomano (turcos) ocupar de vez a região. “Praia! Praia”, pensava eu, cruzando a cidade, sentindo a brisa que vinha de longe. Os egípcios dominaram entre 1870 e 1884. Em 1888, chegou o Império Britânico, que não deu a mínima bola para Berbera, da mesma maneira que eu, apressado para ir à praia, não ouvi o dono do hotel gritando algo para mim. Ouvi, mas fingi não ouvir.

Saia somali

Saia somali.

Era um misto de deserto, cidade abandonada, porto… subitamente senti pedras caindo ao meu redor. Afastei-me. Operários berravam algo lá de cima de um edifício, ainda em esqueleto. Dois rapazes andando mais próximos me perguntaram: “você está maluco?”. Era a bermuda. Como eu tinha esquecido? A chuva de pedras foi parando. Continuei um pouco mais, parei para perguntar onde comprar uma calça ou um saiote. Senti-me completamente nu, enquanto andava aqueles poucos metros. Optei pelo saiote, que usam na Somália, Djibouti e parte da Etiópia. Enrolar era difícil, mas o povo ao redor estava feliz em me ensinar.

Um navio grande encalhado ocupava o cenário. Lutava, torto e abandonado, contra a linha certeira do horizonte. Ainda assim chegam barcos ao seu redor. Os ratos, esses que descem junto às mercadorias, não sobrevivem muito tempo às areias de Berbera. E o que vai sobrando de lá está na atmosfera. Em Berbera não são os prédios que falam. Há lá apenas o resto do resto; o que sobrou dos somalis, otomanos, egípcios, árabes, britânicos e soviéticos. A história de Berbera está na alma. Essa continua lá.

2 comentários sobre “Berbera

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