A casa da vó

Há muitas casas de vó por aí. E quando se viaja, vez ou outra você está lá de volta, na placenta da placenta. A dois fetos de distância, a matriarca da família Iguarán-Buendía oferece biscoitinhos e conselhos e obriga-o a agasalhar-se dentro de casa com cobertores velhos que certamente irão causar-lhe alergia.

Os panos da casa não combinam. Há um bicho de pelúcia gigante na sua cama, duro e vagabundo, arrematado em uma daquelas máquinas que pinçam brinquedos para crianças na vendinha perto de casa. O pobre urso cabisbaixo compõe o ambiente com uma colcha quadriculada, um tapete com motivos persas e uma almofada indiana com pequenos espelhinhos costurados no tecido e que arranham seu corpo levemente, o que o faz virar a almofada de cinco em cinco minutos. Cortinas são sagradas. O ambiente é levemente escuro. Vinho, marrom, verde-musgo, mas são o bege ou qualquer outra cor pastel os escolhidos para ocupar as grossas paredes da casa.

Os charmosos incensários marroquinos, nunca utilizados, mas ainda resistentemente dourados, partilham da mesma mesa que o brinquedinho do Kinder Ovo. Na casa da vó, há democracia de estilos. Há também um aparelho de som em uma prateleira qualquer, com fios descendo displicentemente pela frente da estante. Há vasos de flores de plástico, que não dão trabalho, e a geladeira semiaberta apita ao fundo.

Voltando ao norte da Armênia, parei em Dilejan, um pequeno vilarejo próximo a montanhas, uma floresta úmida e monastérios antigos. O taxista Garik me ofereceu um quarto. Precisou voltar a trabalhar mas fiquei na companhia de Karine e Karine. Uma Karine é a irmã de Garik. A outra, a mulher. Sentamos na varanda, comemos nacos de aipo da horta ao som de um rio que corria próximo ao pomar. Odeio aipo, mas comi, porque há que se respeitar uma avó.

“Temos três vacas aqui”, dizia uma delas em russo. “Aceita leite? Come mais”. Você sabe que vai explodir ou, na melhor das hipóteses, engordar depois de uma visita a sua avó, mas quem liga. A paz reina ao redor da torta de maçã, do doce de abóbora ou da ambrosia.

Anoitecia e fomos ver novela. Não entendia a dublagem em armeno, mas ouvia-se ao fundo um pouco do original em espanhol. Acharam que fosse brasileira, como aquela que fez sucesso que tinha dois homens iguais.

– O Clone.
– Isso, o Clone!
– Aaaah, O Clone, sim, essa era brasileira.
– Ah, é, O Clone – viraram-se para a TV novamente.

Garik voltou tarde, já estávamos prestes a dormir. Tomava uma cerveja e dormiu no sofá. Começou a roncar, mas ninguém parecia se importar.

Os pais do velho taxista moravam em Van, leste da Turquia. Até que a guerra começou em 1915, e eles, ainda pequenos, tiveram que abandonar a cidade e seguir a leste. Garik já nasceu na atual Armênia. “Meus pais tiveram a sorte que muitos não tiveram”, comenta lembrando do genocídio armeno. “Perderam vizinhos, amigos, gente da família, mas ainda eram pequenos, cada qual na sua família… isso foi antes de se casarem, eram novos”.

Eram 6 horas da manhã, quando meu celular apitou. Garik já estava pronto para me levar à fronteira com a Geórgia de onde eu pegaria um ônibus, dividindo o transporte com duas irmãs escocesas que estavam em uma pousada próxima. As Karines já faziam café da manhã e fofocavam. Lá fora, o dia embranquecido com a névoa da manhã parecia não querer começar. O Sol, estrela cansada, apertava a função snooze do despertador. Arrumei minha cama, pus o urso de volta no lugar, passei os olhos nas fotos antigas da família e nos objetos expostos na cristaleira.

Da meia com pantufa para o tênis, de novo. Já do lado de fora, com as mochilas, voltei para a porta da casa e dei um longo abraço nas minhas avós por um dia.

“Leva uma maçã pra comer no caminho!”, ouvi em seguida.

Um comentário sobre “A casa da vó

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s