A esquizofrenia do kuduro

O kuduro surgiu nas paisagens urbanas e caóticas de Luanda, Angola, no final dos anos 80. Como o funk carioca, uniu o vocabulário, o humor e as histórias cotidianas vividas nas comunidades excluídas do cenário político e econômico a batidas eletrônicas cruas e ensurdecedoras. O corpo duro e desmembrado, retorcendo-se rapidamente sobre as lajes de um velho barraco caiu nas graças de todas as classes sociais e venceu as barreiras de território também.

A contribuição da rapper do Sri Lanka, baseada no Reino Unido, M.I.A., junto ao Buraka Som Sistema, Saborosa, Puto Prata e DJ Znobia, resume bem o sentimento e a força que o ritmo tem sobre os corpos. Angolanos ou não.

O ritmo, até meados dos anos 90, era ainda chamado de Batida. Influências da kizomba (grosso modo, que está para o kuduro como o charme está para o funk), zouk, da dance music, e eis que vem Tony Amado, espalhando a coisa toda, considerado posteriormente o “rei do kuduro” ou “o criador do kuduro“. A partir daí, foi explosão. E o nome também ficou. “Hard-ass”, explicavam aos estrangeiros.

As formações iniciais foram de homens, rodeados por mulheres, às vezes dançando nas laterais, o que não durou muito tempo. Tomando as rédeas, como Tati Quebra-Barraco e Valesca Popozuda, a cantora Fofandó foi uma das primeiras figuras a abrir a porta para a voz das mulheres no kuduro. Com um humor agressivo e direto e uma sinceridade acachapante nas letras, o kuduro e o funk, sem os filtros morais das classes mais altas, venceram mais facilmente o sexismo, colocando a mulher como protagonista (ao contrário de muitos outros estilos, como o hip hop americano – claro, há exceções!).

“Sou feia mas tô na moda”, dizia Tati no Brasil. “Ser vadia é ser livre”, Valesca Popozuda. Mulher também pode falar de sexo, de violência, de política, mulher também pode qualquer coisa. E o mesmo acontecia do outro lado do Atlântico.

Com a internacionalização, vieram bandas que conseguiram traduzir o sentimento para o resto do mundo, como os angolanos e portugueses do Buraka Som Sistema, que já se apresentaram no Brasil. Mas um dos primeiros expoentes a aparecer no país foi Dog Murras, que fez participações em shows de vários artistas brasileiros, incluindo Daniela Mercury e Carlinhos Brown.

Muita gente, no entanto, só conheceu o kuduro na abertura “Oi oi oi” da novela Avenida Brasil. Divertida, não era bem um kuduro. Pelo contrário, o exemplo tinha um excesso melódico ausente na versão angolana, além do rebolado não-tão-duro. Mas foi a tradução latina do cantor franco-português Lucenzo. Na versão original, dança-se um pouco como um robô ou um zumbi, o que tive que experimentar em Maputo, Moçambique, em uma viagem em 2012, quando um grupo tentava me ensinar, sem sucesso, claro. Um pobre coitado que herdou do pai uma ginga digna de países escandinavos, teve a sorte de encontrar na mesma pista uma islandesa, que roubou as atenções e deixou o brasileiro sair de fininho e só observar a esquizofrenia dessa dança incrível.

Em um país cheio de deficientes físicos, vítimas das sucessivas guerras e suas minas terrestres, o kuduro é gauche mesmo na maneira de se expressar, é errado, é cu-duro, como diz o nome, perneta, meliante, é convulsão do corpo. É um pouco de Walking Dead. São os mortos e atingidos pela guerra levantando-se da suas histórias de horror, remexendo-se nas ruas empoeiradas e celebrando a vida.

Angolanos ou não, quando a morte espreita mas erra a mira, estamos todos dançando. Querendo ou não.

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