Música búlgara em Orhid

Cheguei em Orhid, pequeno balneário à beira de um lago, no sul da Macedônia e cidade fronteiriça com a Albânia. Muita gente sabe que eu sou louco por música dos Balcãs. Como eu sou um sortudo da porra, cheguei desavisado no primeiro dia do Ohrid Balkan Festival 2014.

Bandas macedônias, sérvias, búlgaras, croatas e o colaborações da Austrália, Polônia e Israel também vieram e estão se apresentando nas ruas e em um antigo anfiteatro grego. Em Sófia, procurei por coros búlgaros para assistir e nada. Chegando aqui em Orhid, foi justamente uma banda búlgara a primeira a dar as graças no palco, pondo fim à minha breve frustração.

Sou daqueles que desejam que uma pedra portuguesa caia do céu a cada vez que alguém levanta seu celular em um show, mas dessa vez não resisti. Se você não está acostumado, tampe os ouvidos porque as búlgaras gritam! E muito. Mas pra aclarar minha fascinação por esse estilo de música aqui vai uma explicação técnica.

Explicação técnica nº1: o uso de ritmos assimétricos, o que faz com que as músicas pareçam instáveis, acelerando, freando e parando subitamente. Segundo Béla Bartók, o Heitor Villa-Lobos da Hungria, esse uso do tempo na música tão complexo só ocorre na música tradicional búlgara, norueguesa e sueca. Apesar de métricas ocidentais e comuns aos nossos ouvidos serem usadas também (como 2/4, 3/4 e 4/4), a música balcânica pode usar métricas ímpares com 5, 7, 9, 11, 13 e 15 unidades. Isso pode ser dividido. Por exemplo, um compasso com 7 unidades é geralmente escrito como 3-2-2 (“3” uma unidade mais demorada e “2”, as mais rápidas). Enfim, confusão mental. Caos aéreo. Não sei explicar. Não vamos tentar entender então. O fato é que você vai ter dificuldade de bater palma.

Explicação técnica nº2: a polifonia nos coros búlgaros é regra. Isso quer dizer que os coros geralmente cantam melodias diferentes ao mesmo tempo. Legal, isso acontece desde o século XIII, mas os intervalos harmônicos nessas melodias é que chocam. São usados, por exemplo, muitos intervalos curtos, extremamente dissonantes. Pode doer o ouvido no início, mas você se acostuma e se você fechar os olhos vai se sentir num vale verde, dentro de um feudo búlgaro na Idade Média. Ou não.

Explicação técnica nº3:  A técnica de canto chamada open throat. Literalmente, “garganta aberta”. O som é redondo, límpido, puro. É a voz em estado puro, sem muitas invasões de outras partes da boca, sem disfarces. A voz como ela é. Semiótica do coro búlgaro: corda vocal, ar, molécula batendo em molécula, seu ouvido, seu cérebro, batidas cardíacas aceleradas, não tô entendendo esse ritmo, “que merda é essa?”, “pô, é bom”.

Explicação técnica nº4:  Os instrumentos: a gaida, um tipo de gaita de fole; gadulka, uma espécie de rabeca; a tambura, instrumento de corda, violino, clarinete… e por aí vai.

Então, o que ouvir pra conhecer mais:  

Music of Bulgaria (1955) – vários músicos

Le Mystère des Voix Bulgares (1975) – vários músicos

Mara and Martenitsa Choir

Trio Bugarka

Ivo Papasov

Valya Balkanska

 

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