Dia de fúria em Skopje

Cheguei em Skopje, capital da Macedônia, por volta das 20h e fui andando até o hotel. Costumo usar o Google Maps que, dessa vez, me jogou longe do meu alvo. Completamente perdido, pedi ajuda em uma padaria/boteco onde dois sujeitos conversavam na porta. O macedônio também tem palavras em comum com o russo e com qualquer outra língua eslava, então a comunicação fluiu na medida do possível. Os dois riam muito de um brasileiro perdido na Macedônia em plena Copa do Mundo 2014. Ri junto.

Perguntaram-me se era da Al-Qaeda ou de algum grupo terrorista e, na negativa, correram então para um Lada velho e me apontaram: “levamos você até lá”. Como nossos pais ensinaram: “não se deve entrar em carro de estranhos”. Entrei. Eles também se perderam. Falavam de Feitosa e um outro sujeito brasileiro, aparentemente mestres do jiu jitsu – desculpem a ignorância. Fingi que conhecia.

“Neymar quem? Fei-to-sa!”, dizia o sujeito forte no banco de trás.

Chegamos a um outro hotel que conseguiu finalmente identificar para onde eu deveria ir. Era logo na esquina. Depois de me deixarem lá, abraçaram-me e escreveram, em um pequeno papel, um nome com letra ilegível. “Meu Facebook”, esticava um braço marombado em minha direção. A recepcionista do hotel ria e me dizia em inglês: “acho que eles tão completamente bêbados, tá?”.

No dia seguinte saí para andar pela cidade e o que vi foi “um rastro de destruição”, fazendo-me lembrar da famosa parcialidade de Leilane Neubarth, Globo News. Godzilla? Não, protestos. Vidros quebrados, latões de lixo pegando fogo, barricadas, bombas ao longe. Se curiosidade matasse mesmo, eu já não existia faz tempo. Fui até lá, mas não podia passar pela quantidade de policiais e camburões e tanques de água para dispersão. Tudo estava fechado em plena tarde de sexta-feira.

 

Singela homenagem à imprensa

Singela homenagem à imprensa

Parei para conversar com jornalistas que gravavam para a TV e a explicação tinha que ser rápida: “é uma história longa, complicada”. Trata-se de um julgamento que dura cerca de 3 anos, que culminou na prisão perpétua de seis acusados por matar cinco pescadores cristãos. Os réus, de etnia albanesa, são muçulmanos. Para parte dessa minoria, que constitui 25% da população da Macedônia, o veredito é cruel, injusto e baseado em especulações, não em provas.

A politicagem no Leste Europeu agradece. Enquanto criam-se novas tensões étnicas, os temas centrais da política são esquecidos e a corrupção rola solta. Metonímia disso: “uma pequena ponte em Skopje que saiu pela bagatela de 7,5 milhões de reais“.

 

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