Meu jeito de viajar

Viajar pode ser a maior prova de fogo antes de um casamento. Uma viagem pode revelar os hábitos mais estranhos, os medos mais profundos, as manias mais bizarras.

Por razões de Google Tradutor, não posso revelar nomes nem muitos detalhes, mas faz pouco tempo, conheci uma mulher que viajou por longos períodos em sua vida e estava começando uma nova empreitada. Entregou-me um cartão de visita. Rosa. Lá, constava seu nome, um endereço de um blog e a assinatura: “espiritualidade + viagem = alquimia do ego“. Conversas interessantes e bom humor nos fizeram passear juntos pela cidade. Mas eu ia embora em um ou dois dias.

“Posso ir junto?” – franzia a testa, o rosto angulando lentamente.

“Claro!” – nota mental: nunca mais repetir instantaneamente essa resposta.

Resumindo bem, cerca de três dias depois era eu uma pessoa sugada por todas as “energias do mal”, chamem como quiser. Tive febre, até febre. Sentia desânimo e terror diante de tanto mal humor, hipocrisia, preconceito e mesquinharia. Silenciosa, a mulher praticava ioga pela manhã. Usava a tarde para criticar o mundo e mandar respostas atravessadas. Não se misturava aos locais, olhava com ar de reprovação sempre. A viagem não lhe parecia fazer bem, mesmo no início. Quanto espaço para reclamações e pouco para aproveitar lugares e pessoas tão incríveis. Quanto espaço para Instagram e nenhum para o olho nu. Arranjei uma desculpa e fugi, mudando o meu caminho no país. Nunca mais entrei em contato, nem respondi mensagens. Vai ver era uma pessoa legal, penso às vezes. Mesmo. Mas não combinou. Não… não era uma pessoa legal.

Pássaro em precipício

De qualquer maneira, o óbvio: cada um gosta de viajar de uma forma. Porque o ato de viajar, pode não parecer, é extremamente íntimo. É quando o corpo está desnudo de qualquer papel social ao qual foi destinado em sua terra natal. À beira do precipício chocante da liberdade, o corpo já não sabe o que fazer. Jogar-se? Entrar em pânico, sentar-se em reflexão, em ascetismo ou carpe-diem-hang-loose, segurar-se em uma pedra, aprender a voar, caminhar de volta?

Bom, como qualquer viajante, eu também tenho as minhas preferências ao lidar com esse precipício:

1. Viajar devagar: não importa se tenho uma semana ou uma década, nada me tira a ideia de que vale mais a pena ficar 1 semana em uma cidade interessante do que ver várias em ritmo acelerado. Uma semana? Que tal um mês? Ou dois? Foi o tempo que eu passei na Etiópia: dois meses. E não teria sido tão incrível se fosse na correria.

2. Sair da rota turística: turismo é uma praga. Exageros à parte, minhas melhores experiências foram em cidades menores, não muito citadas nos guias turísticos. São onde as pessoas te receberão com mais entusiasmo.

3. Aprender a história do lugar: ler um livro ou um artigo na Wikipedia ou um documentário no Youtube faz a gente ter muito mais interesse pelo lugar onde estou. O mesmo vale para conversas com os locais. Pergunto tudo, coitados.

4. Ouvir música: caminhar ouvindo música alta pode te levar a uma morte por atropelamento, mas que é bom, é. Faz os lugares mais bonitos do que são. Só não pode virar regra. Muitas vezes o som ambiente pode ser a música ideal.

5. Viver barato: aprendi a dormir no sofá, no chão, no ônibus, no ombro do colega do lado (babando), qualquer lugar. Não me importo, como na minha adolescência, a pagar um pouco mais por conforto, mas se for a única opção, abraço o capeta. Viajar barato significa viajar mais.

6. Sem planos: não planejar é minha regra número zero. É a base da minha viagem. Lembro do primeiro mapa que fiz antes de viajar. Já não vale nada. Planejar por alto, é bom, sim. Mas planejar cada lugar, cada hotel e transporte, só torna a viagem mais inflexível e metódica. Marcar coisas com antecedência, só se extremamente necessário. Isso eu faço também em viagens menores também. Não há perigo.

7. Não há perigo: 95% do mundo é menos perigoso que o Rio de Janeiro, meu chute. Brasileiros são neuróticos com segurança, com alguma razão. Salvo em casos de guerras, conflitos reais e dolorosos, África e Ásia não são nenhum risco à sua integridade física. Só cuidado pra não ser roubado na fila da Torre Eifel.

8. Descansos: em viagens não há fins de semanas. Então que haja tempo pra descansar. Continuo odiando acordar às 6 ou 7 horas da manhã e faço o possível pra não ter-que.

9. Conectar ou não, eis a questão: ainda não consegui me desconectar completamente. Um smartphone pode ajudar muito a marcar lugares para dormir, procurar por dicas, transportes, ver mapas. Já não sei como eu viajava antes do smartphone.

10. Sem pacotes, sem enlatados: sou especialmente contra pacotes enlatados para turistas. Impessoais, sem graça e cheios de armadilhas para que o turista consuma mais que o necessário. Guias, na maioria das vezes, são dispensáveis. Digo, na maioria das vezes. Alguns guias locais podem transformar uma cidade desinteressante na sua maior descoberta e são importantíssimos pra que você entre no clima do lugar.

2 comentários sobre “Meu jeito de viajar

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