O que há além da primeira mordida de chocolate na Costa do Marfim

A Costa do Marfim, apesar de pequena, é a maior produtora de cacau do mundo, mas nem por isso os fazendeiros de M’Bato, uma pequena aldeia dentro do país, conheciam essa maravilha. O correspondente da holandesa Metropolis TV, Selay Marius Kouassi, faz então a introdução e as reações são emocionantes.

O vídeo repercutiu bastante na internet nos últimos dias e é realmente incrível. Mas há um pano de fundo não muito animador na história toda.

Quem disse que o fordismo acabou?

“Nós reclamamos porque crescer cacau é um trabalho duro. Agora nós aproveitamos os resultados. Que privilégio é provar isso!”, diz um dos trabalhadores depois da primeira mordida.

É inacreditável que, durante décadas plantando, colhendo e secando os grãos, esses trabalhadores não conheciam ainda o resultado do que produziam. Uma barra de chocolate está bem distante da realidade deles. O preço de uma barra é vendido a cerca de R$ 6,50 no país. Era assim na Inglaterra da Revolução Industrial e é assim ainda em rincões subdesenvolvidos, sejam africanos, asiáticos ou latino-americanos. Os agricultores retratados no vídeo estão na parte mais baixa da cadeia de produção e recebem uma parte mínima do que geram em lucros para as empresas na outra ponta da cadeia. Mas o vídeo não mostra tudo.

Há trabalho escravo no seu chocolate?

Há mais de 600 mil fazendas de cacau na Costa do Marfim. Muitas delas ainda se organizam em regime escravo ou com trabalhos análogos à escravidão. Eles contribuem com 35% do PIB nacional. Uma investigação da BBC em 2000 encontrou crianças do Mali, Togo e Burkina Faso trabalhando nas fazendas da Costa do Marfim, vendidos pelos pais com a falsa promessa de terem uma vida melhor. Por fim, essas crianças, entre 12 a 14 anos, trabalham de 80 a 100 horas por semana e não são pagas. Recebem escassa alimentação e são espancadas quando tentam fugir ou cometem erros.

“Os espancamentos eram parte da minha vida,” contava Aly Diabate, um escravo libertado na época da investigação. “Sempre que carregávamos os sacos de grãos de cacau e caíamos por falta de força, ninguém ajudava. Em vez disso, eles me batiam até que eu levantasse e voltasse ao trabalho”.

Quem apoia isso? A gente, na maioria das vezes, sob a nuvem da ignorância. Somos iludidos pelos lindos pacotes e propagandas da Nestlé, Hershey’s, M&M Mars, Toblerone, Godiva, entre outras.

Há saídas?

Claro. E, nós viciados em chocolate, precisamos de saídas. Pressão política é importante e a consciência sobre o que consumimos. Em vez de optar por grandes companhias produtores de chocolate como as já citadas, se você pode pagar um pouquinho mais caro por produtos orgânicos certificados, já é um bom começo. Atualmente, nenhum chocolate orgânico é produzido com grãos da Costa do Marfim. As chances de ter trabalho escravo embutido naquele maravilhoso tablete que vai salvar seu dia são bem menores.

Chocolate, à princípio, não é um bem barato, lembre-se disso. Envolve trabalho duro, tempo de plantio e colheita, fenômenos naturais que podem estragar colheitas inteiras, pragas, transporte e processamento industrial.

Outra boa notícia é que muitas companhias de médio e grande porte, depois das investigações no início da década passada, passaram a certificar-se de que não estavam envolvidas com esse tipo de trabalho. Aí vai uma lista dos slavery-free: Clif Bar, Cloud Nine, Dagoba Organic Chocolate, Denman Island Chocolate, Gardners Candies, Green and Black’s, Kailua Candy Company, Koppers Chocolate, L.A. Burdick Chocolates, Montezuma’s Chocolates, Newman’s Own Organics, Omanhene Cocoa Bean Company, Rapunzel Pure Organics, and The Endangered Species Chocolate Company (veja aqui uma lista completa de várias marcas que não utilizam trabalho escravo).

Difícil, né? Não conhecemos a maioria delas. E, no Brasil, temos pouca transparência sobre o que consumimos. Portanto, a opção dos chocolates orgânicos é a melhor, por enquanto, é o que me parece. Se algum leitor paciente que chegou até essa parte do texto conhece marcas vendidas no Brasil comprometidas com a questão, inclua os nomes nos comentários, pra gente ficar diabéticos/felizes, todos juntos, sem culpa.

Café alert!

Vale um adendo aqui. Muitas fazendas possuem plantios de cacau e café simultaneamente. Ou seja, o café sofre o mesmo problema. E as soluções são as mesmas. Informação e pressão política.

Agora dá licença que eu tô precisando de um cafezinho pós-almoço pra dar uma clareada nas ideias.

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