Tudo o que a gente não sabe sobre os números

“Peraí, os números arábicos não são usados pelos árabes?”, foi meu susto em um aeroporto em Riade, capital da Arábia Saudita. Sabia que muitos países na Ásia, incluindo o sudeste e a região da Índia, não usavam o sistema. Mas pra mim número arábico era número A-RÁ-BI-CO! Santa ignorância. E quanto mais pesquisei, mais buracos nessa história encontrei [vendo rimas ruins para financiar viagem].

5.a.m. no aeroporto de Riade, acordando em uma cadeira do Starbucks.

Pra quem não lembra da primeira aula de matemática, os números arábicos (também chamados de indo-arábicos) são a maneira mais comum de representação de números hoje em dia. Mas essa história está mal contada. Quanta desilusão.

“É melhor, claro, saber de coisas inúteis do que não saber de nada” – Lucius Annaeus Seneca (sec. I)

Erro número 1

Ok, então o primeiro erro dessa história: os números não são usados pelos árabes. Ou, pelo menos, não todos. Da mesma maneira que as línguas e alfabetos evoluem, os números também deram uma mudada de visual. Inicialmente usados por matemáticos no norte da Índia (árabes e persas), os algarismos acabaram evoluindo de forma diferente pelo mundo. Surgiram então duas variantes: os números arábicos ocidentais (os de 0 a 9, que usamos) e os (também arábicos) orientais. Números arábicos

Os ocidentais ficaram mais na região do Norte da África, popularizados pelo influente matemático, Leonardo Pisano Bigollo, o famoso Fibonacci, amigo meu de infância. Ele os conheceu na cidade de Bejaia, na atual Algéria. Acabaram se espalhando pela Europa e depois pelo mundo, já que a Europa resolveu sair colonizando qualquer terra que encontrava por aí.

Erro número 2

O indivíduo iluminado que inventou esses números chamava-se Abū ʿAbdallāh Muḥammad ibn Mūsā al-Khwārizmī e era instrutor, no século XVIII, VIII na renomadíssima “Casa da Sabedoria de Bagdá”, onde babilônios, indianos, gregos, árabes e persas quebravam a cabeça com os números. Nome bonito o do homem. Mas em latim, acabaram pronunciando al-Khwārizmī como algo parecido com Algaritmi e daí a palavra “algoritmo”. E aí vem o detalhe que estraga tudo: ele nasceu na região do atual Uzbequistão e tudo leva a crer que fosse persa, e não árabe. Engole o choro!

Erro número 3

Os números usados por al-Khwārizmī foram todos baseados em algarismos devanagaris (hindi). Eles ganharam o mundo por serem facílimos de serem usados em equações matemáticas. Ao contrário dos números romanos, que mal entendiam o conceito do número zero (o conceito de “nada” na matemática surgiu na Índia) e tinham um sistema complexo para realizar frações. Já tentou fazer conta com números romanos?

Beleza, os europeus acharam maravilhosa a nova tecnologia. Mas, em 1299, a cidade de Florença proibiu o uso desses numerais. Nada lei anti-islã. É que fica muito fácil mudar de 6 pra 8, de 3 pra 5, acrescentar zeros, isso tudo tornava documentos muito fáceis de fraudar. A regra durou por pouco tempo, claro, e a partir do século XV já estava completamente em uso.

Erro número 4

Números e ângulos

Os números têm exatamente a quantidade de ângulos correspondentes ao seu valor? É uma pena. Podia ser verdade, mas não é. A gente gosta de acreditar nessas coisas, mas nenhuma pesquisa histórica leva a essa resposta. Tudo indica que vieram de letras dos alfabetos utilizados pelos árabes e persas no norte da Índia mesmo.

Resumo da ópera da desilusão

Os números arábicos não são arábicos. São, na verdade, números hindis, modificados e popularizados por um persa e não são utilizados em todo o mundo árabe. Um ano de depressão pela nossa ignorância. Brindemos com vinho tinto e compartilhemos o dissabor que este blog nos traz. Chora Brasil!

3 comentários sobre “Tudo o que a gente não sabe sobre os números

  1. Pingback: Hangloose chinês | Km82

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