Daniela Mercury, a Grande

Era o ano de 330 AC. Foi com sangue nos olhos que Alexandre, O Grande, invadia, destruía, queimava e roubava sem pudor a famosa joia do deserto, que os gregos nomearam como cidade dos persas, Persépolis. O nome original: تخت جمشید Takht-e Jamshid (“o trono de Jamshid”).

Contou-me um comerciante local que a história segue assim. Chegando ao topo da montanha mais próxima, o imperador riu, soberbo. Falava sozinho, especulando sobre seus novos títulos. Passava a mão sobre a barba, pensativo: “xá da Persia… ou xá da Ásia. Alexandre Magno, xá da Ásia. Gosto disso!”. Gargalhou amalucadamente. Silenciou de súbito. Relembrou por instantes, vingativo, a destruição de tantas cidades helênicas. Seu rosto se fechava, exibindo olhos semicerrados e a arcada trincada à medida que seus pensamentos voltavam à acrópole em chamas.

Lá embaixo, gritos de desespero iam se dissipando com o fim da resistência. O vermelho dominava e escorria pelo branco das pedras-sabrão e o amarelado deserto. Corpos arrastados, pendurados ou incendiados, estupros, correria… nada abalava a paz interior da qual o experiente guerreiro gozava agora. Observava seus homens de confiança que dedicavam-se aos espólios. Quanta riqueza em um só lugar.

Feliz e mais relaxado, começou a assobiar, olhando para os lados. Batia um dos pés no chão. Empolgou-se com a ausência de humanos ao redor. Ouviu o silêncio e ruído dos ventos arrastando-se pelo estepe e penteando o gado. Foi aí que, então, começou a entoar baixinho, abrindo os braços: “A dona dessa cidade sou eeeeeeeu!”.

Inesperadamente seu canto tornou-se um berro . Ecoando pelo vale à sua frente, Alexandre viu sua frase, até então aparentemente inaudível a 100 metros, ser multiplicada pelos ventos e tornar-se um hino de liberdade. Envergonhado, fingiu estar ocupado com seu cavalo, o cansado Heródoto. Examinava e testava a cela, simulando desconforto. Voltou a olhar para a ex-cidade dos persas e viu o que não esperava. Aproximava-se de si uma multidão aos pés do morro, já não se sabe quantas pessoas. Ao longe, outros soldados desistiam de seus particulares atos de crueldade, juntando-se ao grupo.

Em um ato um tanto espontâneo, rasgaram o tecido das mangas de suas roupas, exibindo os músculos, em demonstração de força – um ritual que chamariam posteriormente de abbadah e começaram a pular em uma demonstração de afeto ao grão-mestre.

Bom, o resto você já conhece. Do zoroastrismo, o axé. E aí veio a Bahia e a coisa toda.

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