Meu aniversário em Teerã

Cheguei a Teerã de madrugada. Comprei um cartão de celular no próprio aeroporto e entreguei-o para o taxista entender como chegar à casa do meu anfitrião. No caminho, trocamos ideias em inglês e espanhol. Antes de virar taxista, Farhad tinha vivido em outros países. Atentei para o fato de que ele começou a viver na Espanha em 1982, pouco depois da Revolução de 1979 e a Guerra entre o Irã e Iraque, mas não tivemos tempo de aprofundar a história. Pooria me esperava às 5 da manhã na porta de casa, com seu celular à mão, bermuda e chinelo. Sorriu e acenou quando viu o carro virar a esquina. Mostrou-me a casa espaçosa rapidamente, o “meu” quarto e sentamos para conversar um pouco antes de dormir. Já amanhecia. Pooria acabava de voltar de uma festa, sentia já um pouco da ressaca que o atacaria no dia seguinte.

– Pode beber aqui, é?
– Não, mas todo mundo bebe.

As regras no Irã foram feitas para serem desrespeitadas, o que ficaria evidente durante a maior parte da viagem, e esse era só um pequeno exemplo. Dormimos até uma ou duas da tarde. Preparamos, então, ovos mexidos e café. Comemos com um pão extremamente fino, que aparentava ser um guardanapo até a primeira mordida. Conversamos mais sobre minha viagem e a vida dele em Teerã. Impressionou-se ao me ver lavando as louças do café da manhã e disse nunca ter recebido ninguém assim. Disse que não insistiria para que eu parasse, não praticava o famoso ta’arof, código de etiqueta e parte essencial da vida de qualquer iraniano, difícil de ser compreendido por quem é de fora. Na prática, consiste em comportar-se diante de qualquer situação com abstinência: não aceitar pagamentos, dar a vez ao passar por uma porta e fazer muita cerimônia para aceitar comida e presentes. Vai um exemplo muito recorrente: depois de almoçar, o dono do restaurante o responde que “não precisa pagar”. Você, então, deve insistir e insistir até que o senhor aceite o pagamento. “É isso, é uma perda de energia! Eu não entendo, porque afinal você vai pagar o indivíduo”, contava-me rindo e ao mesmo tempo revoltado.

Pooria se prontificou a me receber após um pedido pela comunidade do couchsurfing no primeiro dia de viagem, pois chegaria de madrugada, mas avisou que não poderia ficar por mais de um dia, pois precisava trabalhar. Tinha acabado de receber um jovem japonês e teve pouco tempo para tocar seu negócio – uma pequena agência publicitária.

Nesta noite, prepararia minha mala para ir à casa de outra pessoa, que se dispôs a me receber. Os convites não cessaram e logo depois, para minha surpresa, uma iraniana que sabe falar português também enviou-me uma mensagem: “Não tenho espaço para recebe-lo em minha casa, mas posso mostrar-lhe a cidade”. Ela trabalhava na embaixada e começou a falar a língua por curiosidade e pela afinidade com amigos portugueses. Encontramo-nos três dias depois e fomos tomar café. Yasmin é uma simpatia, fala um português excelente e quer ir ao Brasil ainda este ano.

Pooria aproveitou para convidar-me para uma festa no dia seguinte, já que seria véspera do meu aniversário. Acabamos combinando que eu poderia ficar mais dois dias por lá, até que um amigo meu chegasse do Brasil para conhecer o país também. Passamos o dia em seu estúdio com outros amigos, pensando nos preparativos, comendo pizza e bebendo vinho caseiro de altíssima qualidade.

Dia 14, véspera do meu aniversário. Tratava-se de uma festa surpresa para um amigo de colégio de Pooria, Ali Reza, aniversariante. Sua mulher tinha voltado da Alemanha mais cedo do que dissera e apareceria na hora. Entre os mais de 50 convidados presentes, praticamente nenhuma mulher usava um chador ou mesmo um véu no cabelo. As pernas à mostra, roupas com decotes e o barman preparando piña coladas e mojitos me indicavam que estava em uma família sem conservadorismos. A música e a comida, no entanto, eram essencialmente iranianas, com exceção do sushi preparado por uma das convidadas. Muitos vinham me dar as boas-vindas, sempre se apressando em deixar seus contatos caso precisasse. Uma mulher, já nos seus 60 anos, com lábios e bochechas exageradamente preenchidos com botox veio auxiliar-me na arte da dança azeri, proveniente do noroeste do Irã, nas províncias que recebem o nome de Leste e Oeste Azerbaijão e, claro, no próprio país, logo um pouco mais ao norte. Braços levantados, perpendiculares ao corpo e um forte rebolado, que obviamente me fez passar vergonha na frente de todos. Alguns aplaudiam, rindo. Outros juntavam-se ao grupo no meio da sala.

Dia 15, já era meu aniversário de 30 anos. E ele já era inesquecível desde o primeiro minuto. Depois de um jantar opulento, parte dos músicos da banda de Ali Reza juntaram-se para tocar.

Na despedida, a matriarca da família, já com mais de 80 anos e curvada pela idade, segurou-me pelo braço e deu-me três beijos fortes, soltando um punhado de palavras enrouquecidas e doces. Boas palavras, na certa. Eu respondia com merci, merci.

Depois de acordar tarde, combinamos de ir à inauguração de um café de uma amiga de Pooria, em uma galeria mais ao norte da cidade. Paramos em uma confeitaria. Perguntaram-me de onde eu vinha e a reação à resposta seria sempre, até o final da viagem, uma grande surpresa: “Brasil!?”. A maioria dizia nunca ter visto um brasileiro no Irã, o que eu, no fundo, já esperava (mas lamento). Recebi dois pedaços de doces diferentes na padaria. Agradeciam-me por eu ter ido até lá, sorridentes e desejando boa viagem. Tavaludet mobarak (feliz aniversário), soltou um deles.

Pooria pediu que levasse um saco para o carro e que o esperasse. Voltou com mais um bolo que entregou à sua amiga, dona do café. Lá, acabei conhecendo novas pessoas, sentamos na mesa de conhecidos. Um garçom trouxe um milk shake de banana e disse tavaludet mobarak. Nesse momento, aquele Gustavo sentado à mesa com estranhos já devia estar completamente fascinado e enfeitiçado por toda aquela hospitalidade. Mas nada me preparava para o que viria a seguir: um bolo, com o meu nome desenhado em cima e pessoas ao redor cantando “happy birthday to you”, na falta da versão em português. Desejaram-me tudo de melhor e entregavam-me um presente, um grande saco, cerca de um quilo. Abri, ansioso, e notei que Pooria guardou na memória a nossa primeira conversa:

– Por que você escolheu vir pro Irã?
– Na verdade, eu só vim pro Irã pra comer muito pistache.

Obs: As fotos estão em péssima resolução, não editadas e tiradas em um celular ruim. Foi mal.

3 comentários sobre “Meu aniversário em Teerã

  1. Pingback: Um ano viajando | Km82

  2. Ain cara isso tudo é muito incrível! E narrativa boa demaaaais Gus! Bom te ver no primeiro vídeo! Siga por aí, love you more!

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