Hospitalidade russa

Eu, na minha santa ignorância, achava que os russos seriam muito frios e pouco hospitaleiros. Pois viajar serve pra destruir esses mitos. Ontem os donos do albergue em Sochi, a tal cidade que recebeu os últimos jogos de inverno e que já tem enormes elefantes brancos mofando, enfim, os donos me chamaram para sua casa antes que fosse embora. A mulher, descalça, usava um cordão de flores na cabeça e falava comigo como se eu tivesse estudado anos de russo e entendesse absolutamente tudo. O marido, sentado à mesa, fazia contas e deslizou os cadernos para o canto ao me ver entrar. Enquanto os dois faziam coisas na cozinha pediram pra eu me sentar.

Trouxeram chá e um prato de mini-panquecas com uma espécie de sour cream e carne. Comentei que estava uma delícia e eles responderam que compraram pronto no supermercado. Enquanto comíamos, deixei cair a carne da panqueca na xícara de chá. Tentei bebê-lo assim mesmo, mas a carne moída não harmonizou muito bem. Levantei-me e fui à cozinha jogar fora a bebida e a mulher veio atrás para fazer outra. Pedi desculpas e ri. Sentei novamente e o marido me ajudava a escolher os próximos destinos.

Conversamos também sobre a vinda deles para Sochi. Há apenas uma semana tinham assumido a administração do albergue. Moravam em Cazã, na República do Tartaristão (são tártaros, um povo de origem turca, em geral, muçulmanos sunitas), mas resolveram viver perto da praia, num clima mais ameno. Ah, vale lembrar que a Rússia é uma federação cheia de repúblicas… o Tartaristão é só mais uma delas.

Pediram para me adicionar no Facebook, apesar de não acessarem com frequência – na Rússia usa-se mais o Kontakte. Estavam interessados na minha viagem. Estiquei o braço para escrever meu nome no computador e esbarrei na nova xícara. A água quente escorreu por toda a mesa, caindo no colo dos três antes que se afastassem. O computador foi atingido mas não muito. Levantei para pegar um pano, a mulher veio atrás e encontrou um antes. Pedi desculpa e rimos. Sem o inglês pra me ajudar, houve um breve e incômodo silêncio.

Depois de tudo limpo voltamos à mesa e eles insistiram que eu ficasse para comer uma sopa avermelhada tradicional russa, borscht. Aceitei, avisando que tinha medo de perder o trem. A moça sorridente avisou que tinha separado ovos, pão, tomate, pepino e biscoitos para que comesse no trem – “somos os seus pais em Sochi”, avisou. Depois, diziam uma frase que não conseguia entender. A mulher apontou para o meu celular e disse “dicionário” (словарь). Ao esticar a mão até o aparelho, esbarrei novamente na xícara. Não sabia mais o que dizer. Tive milissegundos para pensar em como me desculpar. Começava a parecer proposital. Lembrei-me então, nesse pequeno espaço de tempo, que no dia anterior os dois tinham presenciado uma cena dramática: um brasileiro bebendo chá antes de dormir. O detalhe cruel era que, em vez de açúcar, ele usou sal. Muito sal.

Voltando à cena ainda mais dramática da sala, imediatamente, todos pularam. O tilintar da porcelana. O desespero. A luta pela vida… digo, por uma roupa menos molhada, por um carpete sem manchas. A xícara, símbolo universal da hospitalidade, tenho certeza, alçou voo perpendicular à mesa. Felizmente, o objeto não perdeu o balanço durante a breve aventura. Sem perder o eixo, pousou com firmeza e voltou ao seu estado original, vegetando sobre o pequeno pires. Aos poucos, fomos voltando aos nossos lugares, ainda que ressabiados. Olhamos uns aos outros como que para assegurar: “tá tudo bem aí?”. Tudo bem. Pedi desculpas novamente. Rimos. Perdi o trem.

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