As tribos do Vale do Omo (parte 1)

Leitura: 7 minutos.

O triângulo formado pelas fronteiras entre Etiópia, o recém-formado Sudão do Sul e Quênia é um dos lugares étnica e culturalmente mais diversos do mundo. Tribos como os Bodi (Me’en), Daasanach, Karo, Kwegu (ou Muguji), Mursi, Nyangatom, Hamar, Chai e Turkana dividem os já escassos recursos do baixo Omo para agricultura, pesca e pecuária de subsistência. Apesar da pobreza extrema, as diferenças culturais atraem gente do mundo inteiro interessada no que há de mais exótico. Sim, há turistas.

Rotas no Vale do Omo

Rotas no Vale do Omo

Antes de ir à Etiópia, entrei em um fórum e arrematei mais dois viajantes para ir comigo, um australiano e uma canadense. Cheguei em Addis Ababa, a capital, deixei minhas coisas no hotel e fui rodar a cidade. No caminho, parei um sujeito loiro de olhos azuis que parecia um pouco perdido. Sabia que falava inglês. Perguntei se sabia onde comprar um cartão para o celular, precisava ligar para outros viajantes. Respondeu que também estava procurando. No caminho, nos apresentamos. “Peraí, seu nome é Gustavo? Eu sou o John, o australiano do fórum”.

Mais tarde encontramos a canadense Haroula e conversamos sobre o dia seguinte. Sabíamos que essa deveria ser uma das partes mais difíceis do país. E foi. Os ônibus saem de vilarejo em vilarejo apenas às 5 horas da manhã de cada dia (11 horas no horário etíope), quando ainda está escuro. Além do excesso de gente dentro deles, vão os sacos de grãos, crianças que vomitam por esporte, música em último volume, chat e um calor infernal. Há cumplicidade no sofrimento. É comum que, ao final da jornada, depois de tantos solavancos, poeira e abraços involuntários, o estrangeiro já tenha virado família ou amigo íntimo.

O caminho para Arba Minsch (que significa “40 fontes”, pelos seus rios e lagos), ao sul, levou cerca de 10 horas. Dormi no ombro de um desconhecido. Acordei com crianças dançando à frente do ônibus no meio da estrada. Entrelaçam as pernas rapidamente batendo os joelhos, desengonçados, e ondulando os braços pequenos e magros no ar espesso. Um espetáculo rápido. O dançarino, uma sombra apressada na luz baça do sol incandescente; o palco, uma galáxia empoeirada e sépia em movimento. O motorista não para nem diminui a velocidade. As crianças correrão de volta para os campos e receberão garrafas voadoras de plástico, pedaços de comida, biscoitos e o que mais puder ser jogado pelos passageiros. Um soco no estômago levado com relativa indiferença por quem vê a dança desesperada todo dia.

Éramos os únicos estrangeiros sacudindo violentamente no ônibus e fomos convidados e recebidos por uma família em Arba Minsch, que se juntava para um casamento no dia seguinte. Mesmo ansiosos, à véspera da festa, não hesitaram em preparar um banquete. Comida improvisada e deliciosa, uma recepção inesperada. Estávamos mortos de cansaço, mas passamos a noite conversando, bebendo, rindo e comendo com cerca de 15 pessoas ou mais, que entravam e saíam da casa. Convidaram-nos também para o casamento, mas viajaríamos no dia seguinte pela manhã – não custou muito para sermos chamados para outro, na cidade de Jinka, mais ao sul. De qualquer maneira, fizemos grandes amigos nessa noite e até hoje mantemos contato.

De Arba Minsch para Turmi, onde encontraríamos uma feira que acontece no centro do vilarejo todo sábado. Também era uma oportunidade de vermos uma cerimônia em uma das tribos da etnia Hamar, chamada pelos gringos de bull jumping (salto em touros). Para chegar até Turmi, tivemos que descer do ônibus no meio do caminho, em Dimeka, e tentar por horas uma carona. Nada. Até nossa sorte chegar em um ônibus, depois de duas horas, completamente lotado.

As roupas e os cabelos começavam a mudar. Os homens Hamar, por exemplo, costumam usar pequenas peças que parecem minissaias e tem postura afeminada. Os cabelos são sempre diferentes. Mais tarde, fui descobrir que o uso de certos cortes, que podem lembrar os dos nossos jogadores de futebol mais ousados nesse quesito, é um resultado simples da formação das famílias: pela quantidade de filhos ser muito alta e um homem poder ter mais de uma mulher, o estilo é um sinal, uma marca de qual é a mãe responsável pela criança.

Em Turmi, depois de passear pelo vilarejo, uma viajante francesa nos ofereceu lugar em seu carro. Só teríamos que pagar a entrada na tribo e dar um acréscimo ao motorista e ao guia local. Aliás, no vale do Omo, essa é uma equação complicada. Além de precisar pagar um guia e um motorista local, é preciso pagar uma taxa por pessoa para a entrada na aldeia, inflada por muitos chefes locais na hora em que você chega lá. Haja paciência e bom humor.

Estava tudo bem. Ambiente muito seco e quente, mas de uma beleza e exotismo só vistos em National Geographic. Todos se preparavam para o ritual dos saltos aos touros, bebendo o que eles traduzem como beer (cerveja), mas que é uma bebida de ervas e álcool, amarga e bem distante do sabor de uma cerveja. Como a curiosidade é a minha praia, na primeira oportunidade provei. Os homens mais novos, que iriam participar do ritual não bebiam álcool, mas sim, café. Enquanto isso, as mulheres esfregavam um barro avermelhado nos cabelos. Depois, chegavam próximas a alguns homens e os empurravam com força ou jogavam os cabelos nas suas costas. O clima era amistoso entre todos, até que uma mulher foi chicoteada. Mesmo assim, voltava rindo e parecendo implicar ainda mais com os garotos. Outras mulheres passaram a fazer o mesmo. As marcas eram extremamente fortes e, vez ou outra, a varada fazia espirrar sangue ao redor. Haroula voltou enojada ao ver a cena e disse ter sentido algo respingar. Alguns tiravam fotos, outros se curvavam tensos como que para se protegerem, mas, ao certo, nenhum estrangeiro ali sabia o que fazer nem o que pensar. A cena era cada vez mais violenta. Mais chicotes, mais sangue, mais marcas… mas “o ritual ainda não começou”, disse um guia local. Em poucos minutos, várias questões morais nossas já tinham sido postas em cheque. Como observar essas cenas sem fazer nada? O que podia ser feito? Deveria ser feito? Por quê? Pra quê? Tirar foto? Isso é certo ou errado? Errado estou eu por estar aqui? Ou eles?

Sus-pen-se. No próximo post, o restante da história, uma visita à tribo Daasanach, um casamento e algumas doenças adquiridas. Todas juntas e misturadas, pra ficar mais dramático. 

2 comentários sobre “As tribos do Vale do Omo (parte 1)

  1. Pingback: Um ano viajando | Km82

  2. Pingback: As tribos do Vale do Omo (parte 2) | Km82

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