As tribos do Vale do Omo (parte 2)

Leitura: 10 minutos. O post é continuação da parte 1.

A aldeia começou a se mover toda para uma outra parte do vale. Fomos acompanhando. No caminho, as mulheres conversavam e mesmo todo o sangue e as cicatrizes não abafavam o clima leve de festa entre o grupo. Depois de cerca de 15 minutos chegamos a outro local, um platô arenoso cercado de árvores. Um grupo de homens trazia os touros para o centro do espaço. Nesse tempo, as mulheres continuaram a se aproximar dos mais jovens em provocação. E, em retorno, mais chicotadas e feridas abertas. Alguns turistas demonstravam querer desistir e uma senhora parecia se sentir mal. Sentou-se aos pés de uma árvore para se recuperar. Nesse momento, alguma alma bondosa parou para me explicar – até então não tinha lido muito a respeito e fui pego de surpresa.

A cerimônia do salto aos touros é um ritual de iniciação dos homens Hamar. A partir deste dia, podem se casar, por exemplo. Apenas um deles era o alvo da comemoração, que é, grosso modo, o que é o bar-mitzvah para os judeus. O adolescente tinha cabelo longo e cortado estranhamente só na parte da frente – a parte de trás do cabelo, levantada, excêntrica como um pavão. Chegou completamente nu, ao contrário dos outros. As mulheres da família (irmãs, mãe, primas, amigas e até avós) que desejarem mostrar seu amor pelo “debutante”, devem então fazer o tal jogo, oferecendo-se para receberem chicotadas. Quanto maior a implicância e a coragem dessas mulheres, maior é a demonstração de amor pelo parente que será, agora, considerado um adulto. Para isso, elas usam uma corneta feita de chifre de touro, mais estridentes que uma vuvuzela, mais enlouquecedoras que o cuteleiro da sua esquina. Também cantam e dançam com sinos amarrados nos pés, ao redor do gado desnorteado, tentando mantê-lo em círculo.

Aos poucos, os homens vão substituindo as mulheres no centro e começam a dominar os touros para que formem uma fila. A ideia é que 10 animais estejam alinhados para que o jovem nu corra sobre eles 4 vezes sem cair, durante o por do sol – caso caia, deve iniciar tudo outra vez. “Quatro é o número de tetas da vaca”, contou-me um guia local. Ri da falta de conexões possíveis. De qualquer forma, a explicação não mudou muita coisa. Esse também é um problema (talvez não um problema, uma diferença, digamos) de um ambiente como esse. A experiência é direta, sem intermediários. Portanto, nenhuma informação é processada, nada é oficial. “Há registros da prática do salto em tribos há 10 mil anos“, mas que registros? Não me parece nada inverossímil a informação, mas fica por conta da criatividade, bom senso e fé de cada um.

Ao fim dos saltos, a cerimônia continua, mas não permitem que estrangeiros permaneçam no local. Sentia-me tonto e sentei um pouco para relaxar. Minha água tinha acabado e pedi mais a algumas outras pessoas. O tempo era extremamente seco e quente. John, da Austrália, me ofereceu um pó para hidratação para ser misturado à água. No caminho de volta comecei a me sentir melhor.

Tivemos que dormir em Turmi, não havia outro jeito. No dia seguinte, sairíamos cedo para Jinka e depois para outras duas tribos. Ao contrário dos demais, não consegui dormir sem tomar um banho. A quantidade de poeira no corpo era inédita – nem Rock in Rio 2001. O local obviamente não tinha luz. Nem chuveiro. Ofereceram-me um balde e um pequeno espaço na parte de trás do terreno. Levei uma lanterna. A cada balde despejado de água, uma dezena de baratas se dispersavam ao meu redor. Procurei não pensar nisso. Estava limpo, estava feliz e dormi bem.

O caminho para a tribo Daasanach foi demorado e quente. Chegando lá, precisávamos atravessar um rio barrento, quase seco, por uma ponte certamente não muito segura. Chegamos a um pequeno vilarejo. Ali, estávamos perto da fronteira. Ao horizonte, podia-se apontar para cada país da tríplice fronteira. Algumas pessoas dali eram sudaneses. Alguns membros da aldeia tinham kalashnikovs “para se defenderem de invasões de outras tribos”. No meio da rua de terra, havia meia dúzia de bares onde pudemos beber refrigerante gelado. Difícil entender como energia elétrica podia chegar aquele local. Vimos um projeto norueguês no caminho: uma barraquinha com uma pequena mercearia usando energia solar. Voltava a me sentir fraco e a pressão baixava com aquele sol escaldante. Mesmo assim, fomos andando para visitar casas ao longo do vale. Em uma delas, pedi para sentar e foi onde ficamos por cerca de uma hora, conversando com uma família – o guia tentava fazer a tradução. Um homem, três mulheres e dezenas de crianças. Perguntamos como ele, já um senhor, pôde casar com tantas mulheres: “você deve ser extremamente rico”, Haroula comentou brincando. “Eu sou! Veja só, para pedir uma mulher em casamento são necessárias 40 cabeças de gado. Sempre consegui mais que isso”, devolveu sorrindo. Sentado e encostado em uma árvore fui rodeado por crianças. Queriam ver minha câmera e deixei que uma delas tirasse fotos. A câmera voltou imunda, mas eu só pensava em como conseguiria voltar vivo. Mais água, mais hidrólitos e nada de melhorar. Dois dias depois, tinha febre e, chegando à capital, Addis Ababa fui fazer um exame. Acreditava estar com malária. Mas era melhor que isso: febre tifóide e tifo, juntas. Como as duas se parecem muito, os sintomas eram os mesmos – cansaço, febre, diarreia, pressão baixa, suor frio, dor no corpo e outros sintomas de uma gripe das fortes. A causa, no entanto, é distinta: febre tifóide (água ou comida não tratadas) e tifo (carrapatos e piolhos infectados com a bactéria).

Voltando à viagem no sul da Etiópia, chegamos a ir a mais uma aldeia posicionada em um longo planalto, uma adorável paisagem-cliché africana. Os locais deixavam-se fotografar mas apenas para pedir um pequeno valor em dinheiro em seguida. Perguntamos se as roupas que usam são para turistas. Explicaram que as roupas não, mas as pinturas de corpo (apenas alguns estavam pintados) só eram usadas em dias festivos, portanto, naquele momento era “pra turista ver”. Durante uma conversa, uma mulher que fazia comida em uma das casas parecia nervosa. Disse que estávamos atrapalhando ao observar o processo. Ela moía um grão chamado tef, espécie endêmica etíope e praticamente usado em todos os pratos do país. Não fomos muito bem recebidos, o chefe da aldeia queria mais dinheiro.

Isso é algo recorrente para quem deseja visitar sociedades isoladas. Primeiro que esses não são lugares exclusivamente destinados ao turismo – imagine você fazendo o almoço e três, quando não mais, turistas ao redor fazendo perguntas e tirando fotos. Segundo que, ao verem o potencial econômico do turismo, algumas práticas locais passam a mudar (como as pinturas de corpo para as fotos). Nem sempre essas mudanças são boas. Algumas pessoas passam a ser exploradas, outras podem usufruir sozinhas do dinheiro trazido pelos estrangeiros. É certo que existe uma melhora pela existência de uma segunda possibilidade de renda ou um complemento, mas isso não significa melhora na qualidade de vida de todos. E até onde influenciamos a cultura e os hábitos da região ou até criamos conflitos é algo difícil de mensurar – lembrando que culturas são sempre flexíveis a adaptações, é claro, não são intocáveis. A possibilidade da prática do ritual do salto aos touros virar (ou já ter virado) um mero espetáculo para turistas me pareceu aterrorizante. E é por isso que, apesar da experiência incrível que essa parte da viagem rendeu, não é o meu tipo de aventura preferida – apenas pelo fato de que não me parece saudável em alguns aspectos e de que eu posso causar desequilíbrios indesejados, como, por exemplo, consumir a água que seria escassamente destinada à população local.

As dúvidas vão permanecer. Ainda assim, era uma experiência única e um valioso choque de culturas. E não tinha acabado.

Dormindo na pequena cidade de Jinka, o dono do hotel em que ficamos disse ter um casamento à noite e nos convidou. Não tínhamos roupas apropriadas, mas mesmo assim resolvemos ir, John e eu. Fomos muito bem recebidos. O casal é de cristãos ortodoxos, como a maioria da Etiópia. Vestiam-se com terno, gravata, roupa branca, véu e grinalda. O que mudava era a dinâmica da cerimônia. Muito divertida e barulhenta, havia um show no palco. Os noivos acompanhavam sentados no centro desse palco, dançavam e também se declaravam um ao outro. Deveriam comer primeiro que os convidados. Depois disso, a mesa estava liberada e a comida, como sempre deliciosa. Bebemos muito “vinho de mel” (um sabor estranho, um xarope agridoce com muito álcool) e uma cerveja caseira escura e sem gás (ou seja, não era cerveja, mas era chamada assim). Aparentemente a cidade toda estava lá e fomos o centro das atenções. Acabamos com a turma mais jovem, todos em uma boate de beira estrada. Os únicos brancos, obviamente, tiveram que dançar mais que o restante. Na Etiópia, a maioria das danças exige um rebolado nos ombros e apenas nos ombros e uma espécie de sapateado, pros mais experientes. Nessas horas, as Salmonella Typhi e as Rickettsia deram um tempo. Na verdade, acho que as bactérias até aproveitaram bastante a aventura, os choques culturais, o casamento, as danças, as comidas e as pessoas que conheci. As bactérias aprenderam comigo, é certo. Estavam felizes em mim, congratulavam. E depois de tudo, como um traidor, um soldado infiel, “era eu ou elas”. E a minha crueldade venceu a felicidade das pequenas. Sem pensar duas vezes, tomei a primeira dose de ciprofloxacina e segui com as próximas doses. E daí em diante, nem eu nem as bactérias nos reconhecemos mais. “Guerra”, disse, “essa terra é minha, esses rios vermelhos são meus”. Na cama em Addis Ababa, o aviso dramático ecoava por cerca de uma semana enquanto aqueles pequenos seres sorviam o veneno. “This land is mine!”, dizia, agarrando a terra no chão e esfregando na cara, puxando uma cenoura solitária do solo infértil, erguendo uma bandeira, urinando e demarcando o território. E isso soava demasiado humano.

2 comentários sobre “As tribos do Vale do Omo (parte 2)

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