Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

As montanhas fizeram sua parte no isolamento e na defesa dos svans. Não faltaram invasores na história do norte dos Cáucasos. Nômades de outros locais, atraídos pelas riquezas da Mesopotâmia, além de outros impérios lutando pela supremacia na Ásia Central massacraram as populações da região. Para citar alguns: assírios, macedônios, persas, romanos, bizantinos, árabes, turcos e mongóis. E, com tudo isso, os svans sobreviveram. Em pouco número, é verdade.

Méstia é a maior cidade da região, com cerca de 3 mil habitantes e a uma altura de 1500 metros, e por isso recebeu um pouco mais investimentos, incluindo acesso à eletricidade. Alguns turistas enchem a cidade durante o verão, hoje em dia. Já, quando se visita uma aldeia mais afastada, como Ushguli, a sensação é de que nada muda há muito tempo. Em parte, é possível dizer que perderam a conexão com o nosso século, o que faz delas mais encantadoras do que já são. As famílias são simples e pobres, geralmente com meia dúzia de vacas, um ou outro cavalo para ajudar no transporte.

Quando visitei Ushguli, com mais dois russos que dividiram o transporte até lá, almoçamos na casa de uma família conhecida do motorista. Fizeram sopa, salada, pães e preparavam uma grande travessa de carnes e batata. Enquanto isso, sentamos e tomamos chá dentro do pequeno terreno, que abarcava pneus velhos, latas enferrujadas, um Lada azul velho, um simpático cão, materiais de plantio e varais de roupas a secar. Enquanto esperávamos a comida, esboçávamos uma conversa. A língua era o svan, só falado lá, e para alguns é até mesmo difícil se comunicar em georgiano. Mas o motorista nos acompanhou e conseguiu nos traduzir em russo – que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com nenhuma das línguas. A dona da casa contou que uma égua tinha acabado de dar a luz pela manhã. Pudemos descer a um estábulo subterrâneo à casa e ficar alguns momentos a observar os movimentos erráticos do potro. Desesperava-se ao perceber que a mãe estava a mais de 10 centímetros de distância e colocava-se logo abaixo dela novamente. O cão, guardião da casa, tentava comunicação e pulava ao redor querendo brincar.

Comemos e continuamos andando pelo vale e o silêncio e isolamento me lembraram um pouco da sensação de estar na Ilha de Páscoa, de estar longe de tudo, flutuando no meio do mar. Além das montanhas, as torres estão espalhadas por todos os lugares. Elas serviram por muito tempo como defesa dos moradores da região e foram construídas entre os séculos IX e XII. Dentro delas eram mantidos os bens familiares e muitas serviam como a própria casa – são verdadeiras fortalezas individuais. O que é mais incrível: até hoje há famílias que usam as torres para os mesmos propósitos, apesar da maioria já ter construído, obviamente, uma casa maior e um pouco mais confortável, fora da torre.

Daí, aquele vento frio bate cantando assustador entre os espinhaços e as nuvens no céu parecem acelerar. O sino da igreja toca ao fundo. Um grupo se move lentamente até lá, cruzando as ruas de barro. A senhorinha bate a porta de madeira e vem atrasada lá do outro lado do vale. Na frente, um padre barbudo, todo de preto e um grande crucifixo prateado pendurado ao pescoço. E isso é qualquer coisa de banal, como andar até a padaria, e qualquer coisa de sensacional, como um padre nas montanhas ao norte dos Cáucasos levando seus fiéis até a igrejinha medieval e falando em uma língua que nem eu e nem você entendemos. Qualquer coisa do Haneke, do Dreyer ou Umberto Eco. O cenário é de mistério e insiste em ser preto e branco. A retina nega: “não é, olha o verde, como é verde”. Mas o que a retina tem de teimosa ela tem de burra, porque ali na frente a cena acontece, aquelas pessoas que desviam do caminhão velho e o senhor bêbado caindo e reclamando da vida aos berros, ah, esses estão todos em preto e branco, certeza. E fim.

2 comentários sobre “Um bom cenário

  1. Pingback: Um ano viajando | Km82

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