Arte erótica em Khajuraho

Em um dia quente de 1830, uma expedição do engenheiro inglês T. S. Burt chegava a um pequeno vilarejo em Madhya Pradesh, um dos estados centrais da Índia – que, na época, ainda contava com as terras do atual Paquistão e Bangladesh. O pequeno grupo, além de provimentos básicos para os próximos dias, carregava alguns livros antigos de historiadores e de viajantes da região. Hospedaram-se na cidade de Chhatarpur com intenções de conhecer o vilarejo de Khajuraho. Ali, no meio daquele matagal, longe de qualquer centro urbano, devia haver um grupo de curiosos templos. Era o que diziam os relatos do marroquino Ibn Battuta, de 1335, por exemplo.

… perto dos templos, que contêm ídolos mutilados pelos muçulmanos, vive um grupo de iogues que deixam seus cabelos crescerem ao tamanho de seus corpos. E devido a esse ascetismo extremo, todos têm uma cor amarelada. Muitos muçulmanos visitam esses homens em busca de ensinamentos de ioga.

Isso queria dizer, que mesmo com todas as destruições de templos hindus e jainistas que ocorreram desde as invasões muçulmanas pelo norte, aqueles edifícios tinham sobrevivido não só em função do isolamento do local, mas pela presença dos próprios muçulmanos em busca de ajuda espiritual.

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Muito mais tarde, uma publicação científica em 1813 apresentava a descoberta de novas inscrições em sânscrito, língua antiga de toda a região da Índia. Nela, historiadores descreviam a dinastia dos Chandelas, grupo que reinava Khajuraho. Mais uma peça do quebra-cabeça.

Bem, pulando novamente a 1830, Burt não demorou muito para encontrar outros peregrinos adentrando o matagal. Os relatos que chegavam depois às autoridades britânicas eram um misto de fascinação e surpresa pelo que viam. Pelas próprias palavras do pesquisador:

Antes de deixar finalmente os sete templos encontrados, devo opinar sobre o que vi. Esse é provavelmente um dos mais bonitos grupos de templos reunidos em um só lugar entre todos os vistos na Índia e todos estão a “uma jogada de pedra” de distância uns dos outros.

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Nem tudo eram flores. As descrições vêm às cores da época, com pinceladas da moral puritana e os pudores da era vitoriana. E imagens eróticas não cabiam como algo aceitável. “Os arquitetos se excederam de forma horrível, sobretudo em um local de adoração aos deuses”, descreve um dos pesquisadores no Jornal da Sociedade Asiática de Bengala. “É pior que Pegga Pig!”, publicava outro no Orkut (o Facebook de 1800-e-vovó-mocinha). Os templos, construídos entre 885 a 1050, causaram escândalo e a repugnância de alguns, inclusive nos meios acadêmicos – tudo pelo excesso de sacanagem. Dos 85 originais, 20 templos sobreviveram à história e ainda podem ser vistos hoje da mesma forma como vieram ao mundo.

Mas era pra tanto drama? Bem, as esculturas lascivas não são tantas assim: trata-se de 10% de todas as que estão lá. Ainda assim chamam a atenção, é claro, sobretudo por não serem apenas esculturas de casais mas, muitas vezes, de grupos (algumas vezes com animais ou bestas no meio, além de ajudantes para a realização das “acrobacias”). As principais posições formam um símbolo que é na verdade um mantra – um som a ser repetido durante a meditação. Pra ser mais preciso, é como aquela fonte-pornô que parecia um Comic Sans, mas que quando você chegava perto eram bonequinhos fazendo sexo. Os hindus inventaram antes, internet.

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Dentro da tradição tântrica (uma das várias linhas de pensamento dentro do hinduísmo), o sexo também pode ser uma forma de união com o universo e caminho ao moksha – libertação do sofrido ciclo de reencarnações, base da filosofia hindu. E o que pode parecer estranho hoje, não era (e nem é) algo de outro mundo para sociedades pouco influenciadas pelos ideais judaico-cristãos, em que a atividade sexual foi relegada à categoria da impureza e da indecência, mas isso é uma conversa longa.

Voltando aos templos, outras são esculturas de deuses, animais, demônios ou de seres humanos em poses pra lá de profanas: arrumando o cabelo, fazendo a maquiagem, tomando banho, tirando selfie no churrasquinho da laje, brincando com as crianças, dando uma volta com um elefante… e um sujeito dando uma paulada em um macaco que atrapalhava um momento íntimo com sua parceira (coisas banais que podem acontecer durante o sexo, quem nunca?). Observar essas nuances é o maior barato e pode te hipnotizar por algumas horas.

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A experiência da visita aos templos fica completa quando encontramos grupos praticantes desse tipo de filosofia e isso não quer dizer que você vai ver orgias a céu aberto. Certamente elas acontecem, mas não lá… acho que os guardinhas não os deixariam. Em um templo dedicado a Shiva, deus da destruição, pude observar uma mulher em transe. Girava à sua volta até, muitos minutos depois, cair ao chão. Em seguida, arrastava-se ao chão, como uma minhoca. Movimentos sensuais de deixar qualquer dançarina do Mr. Catra no chinelo. Ao redor, o grupo observava calado e um ou outro começava a entrar em transe junto e a girar, girar. Eu fiquei na minha, sentadinho, calado. Eu podia tá roubando, eu podia tá com meu carro de som tocando “Lepo Lepo” aos berros, mas preferi ficar ali, só observando e pensando: “Cara, esse mundo é muito louco. Que bom”.

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