Por que ir ao Afeganistão. E por que não.

Sempre tive muita curiosidade e me coço inteiro só de pensar na possibilidade de ir ao Afeganistão, um dos países mais bonitos naturalmente e recheado de história, a começar pelo fato de estar no centro da Rota da Seda. Ali cruzaram centenas de civilizações e essa é até hoje a maior riqueza da região e, talvez, também um dos fatores que levaram à agonia que os afegãos vivem hoje. Então, para começar: por que não ir? A situação é realmente ruim e não vale a pena se arriscar. Essa, no entanto, é a única razão que consigo encontrar: guerra e, consequentemente, extrema pobreza. É uma razão forte. Mas quando a situação melhorar, não pensarei duas vezes. Agora…

Por que ir ao Afeganistão?

O texto abaixo é uma tradução livre de uma resposta do usuário Hadayat Seddiqi, na rede-social-cabeça Quora. Ele é perguntado sobre O que todo mundo deveria saber mas ninguém sabe sobre o seu país?. Aí vai a resposta e leve em consideração que: 1) as opiniões são dele; 2) trata-se de uma pessoa nascida no Afeganistão que se mudou para os EUA com menos de 1 ano mas ainda mantem relações com o país, pois possui familiares lá.

“Eu sou do Afeganistão. Essas são as melhores fotos que podem dar uma ideia de como é o país. Vamos começar com algumas paisagens.

Você deve estar pensando: “o quê? neva lá?” Sim, neva. E temos leopardos-das-neves. A média de neve é de algo como 1,50m por inverno.

Você provavelmente conhece esta menina.

Mas nós temos muitas pessoas e etnias diferentes. Aqui mais algumas fotos de afegãos.

Muita gente fica surpresa ao ver afegãos, por exemplo, com olhos azuis, ruivos, ou que podem até parecer europeus. Minha mãe tem pele bem clara e olhos verdes, o que muitos acham inacreditável porque eu não tenho nada a ver com isso – tenho barba rala, pele mais escura e o cabelo enrolado. Minha irmã tem cabelos castanhos, olhos cor-de-mel e pele clara. E meu pai parece um indiano. Tem pele escura e cabelo preto liso. Portanto, existem muitas etnias que residem no Afeganistão: Pashtun, Tajik, Hazara, Uzbek, Aimak, Turkmen, Baloch, Pashai, Nuristani, Gujjar, Arab, Brahui, Pamiri, e muito mais. Os nuristanis são decendentes diretos dos arianos. Os tadjiques são uma mistura de arianos também (o Tadjiquistão faz fronteira ao norte). Hazaras são descendentes de tribos mongóis. Você pode ler sobre cada um pelos links acima, mas praticamente todos tem relações com os persas, o que explica a as características arianas. De fato, antes a região era chamada de Ariana. Importante lembrar que os nazistas chamavam de arianos etnias diferentes – obviamente eles não estão restritos apenas a pessoas loiras de olhos azuis. Mais ou menos metade do país fala dari, que é um dialeto do farsi (persa moderno, falado no Irã). Um terço fala pashto, mas a maioria sabe as duas línguas. Existem outras também, que são menos comuns.

Mudando de assunto, nós temos um novo exército com a integração dos Estados Unidos para abater os filhos da mãe dos talibãs. Aí vão algumas fotos:

Sim, mulheres oficiais.

Também temos forças especiais:

O Afeganistão era muito diferente antes da invasão soviética e a tomada pelos talibãs. Não chegava a ser uma nação próspera, mas certamente melhor do que é hoje. E não éramos uma nação baseada no islã como hoje.

A maioria das pessoas apreciam o que os americanos têm feito, mesmo que reconheçam que façam coisas erradas e que às vezes era melhor não tê-los por lá. Mas livrar-se dos talibãs é algo muito importante para nós. Vale ler a resposta do Saifullah Khan à pergunta A maioria dos afegãos pensam realmente que a ocupação americana é pior que o talibã?, que fala um pouco dessa sensação em relação aos norte-americanos.

Afegãos são muito empáticos às dores sofridas pelos outros justamente por terem passado por tantas gerações em meio a guerras. Existem afegãos bons e afegãos ruins, simplesmente como em qualquer lugar, e, infelizmente, existem muitas pessoas boas que se tornaram ruins pela pobreza, fome, mortes e outras situações indignas. Mas isso não fez com que eles parassem de demonstrar seu amor. Aqui estão algumas fotos de quando os bombardeios em Boston aconteceram.

Hoje em dia vemos algumas cenas modernas como estradas pavimentadas e outdoors publicitários que não tínhamos antes da chegada dos americanos.

Quase 90% do país tem cobertura de celular – a mesma situação da maioria dos países africanos, por exemplo. E essa é uma tecnologia transformadora, apesar de que tanta gente ainda não tem acesso a uma energia elétrica estável.

O time de futebol ganhou o Campeonato SAFF, batendo na Índia, Nepal, Paquistão e outros países do Sul Asiático… e também ganhou a Copa das Confederações do Sul Asiático. Os afegãos também cresceram praticando e assistindo críquete e o país foi qualificado para a Copa do Mundo, e jogaram contra grandes nomes: Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, Sri Lanka. Isso é importante, especialmente porque o time começou de um campo de refugiados no Paquistão. E agora, estamos jogando em arenas internacionais. Mais algumas imagens:

Em termos de exportação, o Afeganistão é o maior produtor de ópio e cânhamo no mundo.

Também exportam muitas frutas, como romã, uvas e melões.

Em 2007, depósitos minerais foram localizados e estima-se que valem entre 700 bilhões a 3 trilhões de dólares. Pode ser bom ou ruim para o país, dependendo de como a política se comportar.

Por que o Afeganistão está essa bagunça e acabado pela guerra? Bem, trata-se de um lugar muito estratégico. Para se chegar à China e Índia pelo Oriente Médio e Europa, há que passar por aqui. Por isso, estamos no meio da antiga Rota da Seda (do Mar Mediterrâneo à China). Infelizmente, um lugar muito atrativo para a invasão de outros países.

Soviéticos sendo expulsos depois de invasão.

Você pode facilmente ver, pelo mapa, quão estratégica é a região – há uma fronteira com a China, bem na ponta leste.

O Afeganistão é um pouco maior que a França, mais ou menos do tamanho do Texas e fica na Ásia Central, não no Oriente Médio. O país também é conhecido como o cemitério de impérios. Esse não é um nome muito correto, mas existe algum mérito aí, porque muitos consideram como um lugar “inconquistável”… muitas invasões deram errado. O Afeganistão também é o maior produtor de refugiados e exilados no mundo. Não é difícil entender por quê. Faço parte de uma primeira geração de americanos – não nasci aqui, mas me mudei com menos de 1 ano. Meu pai era o mais velho da família e conseguiu fugir do país, com muita sorte e em circunstâncias muito perigosas. Ele acabou arranjando um trabalho temporário na CNN em Atlanta e ficou como residente permanente. Um dos meus tios escapou pelo norte e ficou algum tempo em uma situação deplorável. Agora está a salvo na Bélgica e trabalha como engenheiro. Outro vive na Suécia. Tenho muitos familiares na Europa, mas a maioria dos meus parentes ainda estão no Afeganistão. E essa é uma história típica para muitos de nós que queremos prover uma vida melhor para suas famílias, levando-os para a Europa ou Estados Unidos ou enviando dinheiro de volta quando conseguimos exílio.

Isso é tudo do que eu posso me lembrar agora. Espero que aproveitem meu relato.”

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