Natal em Goa

“Se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa” ~ sabedoria popular

Na Europa, a região que ficou conhecida como a que provia especiarias por meio de Portugal, para depois cair na graça dos hippies e, depois, pelos clubbers com suas raves intermináveis, Goa hoje tem apenas uma cena decadente de cada um desses períodos. Destino predileto dos russos e britânicos exilados do frio e jovens israelenses, que viajam em bando logo após terminarem seus serviços militares, Anjuna e algumas outras praias ao norte do estado ainda concentram as festas. Ali, os senhores enrugados ostentando tranças, imensas tatuagens, manchas cancerígenas, tanguinhas e tantos outros artigos ridículos quanto couberem na imaginação, se misturam a grupos de indianos que estão bebendo pela primeira vez e que se jogam desorientados nas ondas sem saber muito como funcionam aquelas águas escuras. Debutam nos caixotes e na forte correnteza anunciada em bandeiras vermelhas, muitas vezes completamente vestidos. Não deixa de ser divertido ficar observando famílias inteiras sendo jogadas de volta à costa, tossindo água, comendo areia. As mulheres vão com seus saris. Os homens, com roupas que vão de simples cuecas velhas a trajes completos: camisas sociais e calças jeans. Riem e aproveitam aquilo como o paraíso. E é.

O paraíso é isso. Beber e entrar em uma máquina de lavar.

Um cadeado chamado Hitler.

Um cadeado chamado Hitler. Not nice!

Os jovens de Israel, sempre separados dos outros e com seus grupos formados, conectam seus iPhones a caixinhas de som e deixam-se levar pelo som eletrônico repetitivo, que chegou a ser batizado de Goa trance, nos anos 90. Com seus bambolês, malabares e tudo o mais que parecer circense e combinar com a batida hipnótica, aproveitam a praia como em casa, protegidos por uma bolha.

Anexada de volta à Índia apenas em 1961, o pequeno estado ainda tem carinha de colônia portuguesa nos trópicos. Tem cheiro de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, tem cheiro de Açores, ainda que não tenha ido a nenhum desses lugares, tem cheiro de lá. Alguns locais, mais concentrados no bairro histórico de Fontainhas, em Panjim – capital de Goa – ainda desenrolam um belo português, sem afetações concanins – a língua local. As poucas e belas mansões coloniais fazem a gente se deslocar até Paraty ou Ouro Preto e voltar. Tudo acontece em milissegundos. Talvez Paraty ou Ouro Preto sejam muito. Panjim tem cara de cidade de interior na Bahia, cercada por um rio sujo mas ruas, vejam só, limpas.

Decidi ir às praias do sul, mais tranquilas. Aluguei uma scooter (5 dólares por dia!) e dividi com um turista inglês e saíamos à procura de novas praias. Esbarramos com fortes antigos, igrejas isoladas, vilas de pescadores, praias e rios pouco explorados e cercados de coqueirais. Dirigir na Índia não é fácil e alguns sustos no meio do caminho foram inevitáveis, mas talvez Goa seja um pouco mais organizada. Os moradores de Goa costumam dizer, quando saem do estado: “vamos à Índia”, não por um impulso separatista ou um orgulho bobo, mas pela simples constatação de que há Índias diferentes.

É provável que tenha engolido ou inalado uma quantidade considerável de insetos por esses dias.

Kola, praia ao sul de Goa

Rio em Kola, praia ao sul de Goa

A cidade de Velha Goa concentra o que há de mais antigo por ali e fica há apenas uma hora da capital. A cada 10 anos, o túmulo de São Francisco Xavier, um dos maiores responsáveis pela disseminação do catolicismo no oriente, é aberto para exposição de seu corpo mumificado. Calhou d’eu estar por lá. Calhou d’eu ver o corpo. Gente de muitos lugares vem como peregrinos ao local e as filas podem ser desestimulantes. Trata-se exatamente de uma múmia. O corpo já escurecido, ainda alguns fios de cabelo, alguns ossos aparentes e extremidades carcomidas. E é aí que vem um detalhe bizarro: em Goa, pedaços do corpo do santo eram considerados talismãs de sorte. Há o caso conhecido de uma menina que retirou um dos dedos do pé e o levou para casa dentro da boca, para que ninguém o visse. Outros dedos foram retirados e, ainda hoje, estão em casas antigas de famílias ricas da região. O corpo do santo foi, por fim, utilizado pelos portugueses no fatídico 19 de dezembro de 1961, quando as tropas da Índia avançaram para tomar a região. Esperavam, com isso, que os locais temessem a destruição do sagrado corpo e ajudassem os portugueses a manterem a pequena colônia. Os 40 mil soldados entraram. Os portugueses encolheram-se na praça central, esperando ajuda exterior para sua retirada. Nenhum tiro. O santo foi colocado de volta ao mausoléu na Igreja Matriz. Os portugueses perdiam Goa, Diu e Damão e iniciavam um longo processo de descolonização. Em 1961 mesmo, perdiam a Ilha de Angediva, no mar Arábico. Na década seguinte o império desmoronava: Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste (Indonésia, até 1999), Macau (sob completa administração chinesa a partir de 2002).

Igreja principal de Panjim, capital de Goa.

Igreja principal de Panjim, capital de Goa.

Era 24 de dezembro e decidi voltar a Panjim para comemorar o Natal em estilo indo-português. Com mais algumas pessoas do albergue, comemos peixe e fomos para as Missas do Galo. Havia duas na cidade, interrompidas muitas vezes pelos fogos de artifício em todo o lado. Eram em inglês e concanim. Apenas aos domingos há ainda missas em português. Nas casas, algumas famílias já se deliciavam com postas de bacalhau, enquanto outras – hindus, muçulmanas etc. – passavam por uma noite como outra qualquer, mas acredito que a maioria aproveitava a festa assim mesmo.

Sabe, na Índia tudo parece dar errado. Tão errado que às vezes dá certo. Em uma igreja menor, um grupo desafinado começava a cantar. Daí vinham os fogos de artifício. Continuavam assim mesmo, mas eram interrompidos novamente, agora por uma guitarra elétrica, pesada, distorcida. Não era um show de hard rock. O moço do violão pisou em sua pedaleira sem querer. Normal. Minuto depois e começavam a música de novo. Microfonia. Tudo aquilo com a solenidade de um velório, gente vestida com longos e fraques, e alguns risinhos ao fundo. Não parava aí, tínhamos:

Velinhas de Natal fora do controle

Velas de Natal fora de controle

Um garçom do Baixo Gávea fazendo parte do presépio

Garçom no presépio

Essa foto no cardápio da ceia

Lagosta no cardápio

Depois do desafinado grupo que cantava na capela, rodamos mais uma vez a cidade. O clima era de festa. Alguns carros buzinavam, as crianças andavam com chapéus de Papai Noel e qualquer outra coisa que vendessem na rua. Saímos dali e fomos procurar um bar. Fomos beber. Beber e entrar na máquina de lavar.

3 comentários sobre “Natal em Goa

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