Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Não é difícil, então, encontrar locais com reminiscências de feitorias e fortes portugueses, onde os homens tiveram que fazer o possível e o impossível para reabastecer caravelas ou esperar as monções e a morte por inanição, escorbuto, malária ou qualquer outra doença da moda – se ebola estivesse lá, pegavam ebola também. Em troca das doenças tropicais, proviam as europeias: catapora, sarampo, rubéola, tuberculose, gripes. Conseguiram dizimar populações inteiras por meio do mais banal ataque terrorista: o espirro. Tá vendo como nada é novo? Nas Américas, valia entregar também espelhos pros índios todos babados com um espirro lusitano.

Assim os perdigotos portugueses foram a viajaire por todo o mundo. Na África do Sul, por exemplo, encontrei o museu de Bartolomeu Dias, bem na baía onde aportaram suas duas caravelas. Saíram de Lisboa com 100 toneladas cada. Devem ter chegado quase vazias mas talvez tão pesadas quanto se depender da proliferação de ratos nesses barcos – se bem que eles também viravam churrasquinho, é certo. Divagações escatológicas a parte, Bartô saiu de Portugal em agosto de 1487, tentando contornar o continente africano e mapear novas rotas seguras de navegação. Foi parar ali pouco depois da curva, digo do Cabo das Tormentas (depois, Boa Esperança) – aparentemente Dias não percebeu que finalmente tinha ultrapassado o ponto mais temido dos navegadores e parou em uma praia a qual nomearam de Aguada de São Brás, hoje conhecido como Mossel Bay. Um adendo: saía um português, ia um holandês atrás. Os portugueses chegavam, davam um nome de um santo, fechavam negócios com os chefes locais, construíam meia dúzia de paredes brancas, estupravam meia dúzia de mulheres, conquistavam a terra e em seguida eram expulsos por holandeses, que renomeavam o local, fechavam novos negócios and so on. Fim do adendo.

Na verdade, há pequenas construções e indícios da presença dos portugas por toda a África e Ásia e isso não chegava a ser um motivo de surpresa, apesar de fazer com que a gente sinta que valeu a pena ter aquelas aulas de história em vez de babar em cima do caderno.

Agora em dezembro de 2014, passei por Goa e nem conta falar de Goa, porque foram colônia até 1961. Mais ao sul, na região de Kerala, também na Índia, há comunidades grandes de católicos. E como sempre, a história é essa: hindus que recebem os portugueses por um tempo e que depois os expulsam com ajuda dos holandeses e, por fim, vem os britânicos dominar aquele espaço e o resto do mundo todo. Bom, foi ali na cidade de Cochin, onde passei o meu Ano Novo, que encontrei a igreja onde Vasco da Gama foi enterrado. Sim, ele morreu de malária, a doença que não escolhe classe social, ali em 1524. Há ainda seu túmulo na Igreja de São Francisco. Só depois de 11 anos, o corpo foi levado de volta à terra natal e posto no Mosteiro dos Jerônimos em Belém, onde iria se juntar, mais tarde, ao de Luís de Camões. Colegas post mortem. Curioso em Cochin é que ainda permanecem Souzas, Fernandes, Guimarães, Pereiras e uma cacetada de sobrenomes portugueses, apesar de ninguém mais falar a língua nem ter mais ligações das quais tenham conhecimento – os holandeses, pra variar, ocuparam a região em 1683, permanecendo até a ocupação britânica, em 1795.

Agora, escrevo de Colombo, capital do Sri Lanka. E não preciso explicar o porque do nome da cidade. Mesma coisa: portugueses, holandeses, britânicos e “independência ou morte”. Passarei ainda por Malaca, na Malásia, Timor, ao lado da Indonésia… bem, tudo isso tem histórias parecidas.

A curiosa história de Cristóvão da Gama

Mas de todas essas personagens, havia uma que não esperava encontrar: um tipo que resolveu ir pra Etiópia. O sujeito era filho do Vasco da Gama? “Sim”, respondia o guia em meio aos castelos de Gonder, “um dos seus filhos com a dona Catarina de Ataíde”, que-deus-a-tenha. Visitando a cidade, ouvem-se então as histórias de Cristóvão da Gama que, sob o comando do seu irmão Estevão da Gama, saiu de Goa (Índia) em expedição até o Mar Vermelho em 1541. Era uma armada de 75 velas com o objetivo de destroçar naus otomanas em Suez (Egito). Queimaram tudo e receberam elogios da corte e mais dinheiro, claro. Não houve tempo pra alívio. Logo depois, receberam a notícia de que precisavam ajudar o cristianíssimo reino da Etiópia, que estava sob ameaça dos muçulmanos (somalianos e sudaneses, aliados a árabes e otomanos). Na época, os portugueses eram um dos grandes grupos terroristas do mundo e, como as atuais jornadas do Estado Islâmico, faziam boas guerras santas mundo afora, com especial preferência à África pagã ou muçulmana. Os otomanos (que a gente hoje chama de turcos) e os mouros (que a gente hoje chama de árabes) faziam o mesmo por ali (que a gente hoje continua chamando de África mesmo).

Bom, D. Estevão espertão ficou em sua embarcação parada em Massawa (atualmente na costa da Eritreia) e mandou o irmão com mais 400 homens desnutridos para acabar com a palhaçada. Cristóvão e seu grupo adentraram a região até chegar em Debarwa, numa caminhada de 11 dias. Era 20 de julho de 1541 e foram avisados que a época era de monções no nordeste da Etiópia, ou seja, todos os caminhos estavam fechados por causa das chuvas. O comandante ficou fora de si, mas resolveu o seguinte: ninguém ia ficar de bobeira. Colocou todo mundo para trabalhar em construções inúteis, verificar artilharias e invadir vilarejos que tinham se rendido aos muçulmanos. Em uma dessas ocasiões, ficou sabendo que a rainha, Sabla Wengel, estava escondida em uma montanha por perto, um local em que o grupo islâmico de Ahmed Gurey não tinha alcançado até então. Com 100 homens, em um história à la Mario Bros, Dom Cristóvão conseguiu resgatá-la e levá-la consigo – arrematando também o pequeno exército extra de 30 homens e 50 mulheres.

As chuvas pararam. O grupo já podia seguir em frente, mas os relatos são de que mal conseguiam levar a artilharia de tão pesada. Resolveram então deixar metade do peso pelo caminho e pouco depois deram de cara com tropas somalianas. Saíram quase ilesos, perdendo 8 homens, mas sabendo que em seguida o pior estava para acontecer. O próximo encontro seria com o próprio imã Ahmed Gurey.

Ok, temos aí então:

– Cristóvão da Gama – Mario
– Estevão da Gama – Luiggi
– Sabla Wengel – Princesa (Peach)
– Ahmed Gurey – Copa (Bowser)

Depois de um cogumelo no caminho, Cristóvão se sentiu grande e partiu pro enfrentamento. Eis que chega um mensageiro com uma carta do imã, algo do tipo: “Meu caro, tô ligado na tua. Vaza da Etiópia a-go-ra ou te quebro em dois”. O português, que devia já estar muito doido do chazinho, respondeu com o pouco de árabe que sabia que estava ali “às ordens do grande Leão do Mar” (oi?) e que “no dia seguinte, Ahmed veria do que os portugueses são capazes”. Não bastasse o desaforo, Cristóvão entregou ao mensageiro uma pinça para sobrancelhas e um espelho bem grande, chamando o inimigo de “mulherzinha”. É sério.

As batalhas começaram e, nas duas primeiras, os portugueses conseguiram abater as tropas de Gurey, que se refugiou em uma montanha e pediu ajuda à gente importante do sul da Arábia e do Império Otomano, conseguindo nada menos que 2900 mosqueteiros.

Não parece ser fácil lutar nessas montanhas...

Não parece fácil lutar nessas montanhas…

Em 28 de agosto, Gama e metade de sua tropa foram capturados. No campo de Ahmed Gurey, Gama iria enfrentar os dias mais difíceis de sua vida. Ironicamente, a tortura começava com as pinças entregues ao imã. Seus fios de barba eram retirados um a um enquanto homens ao redor exigiam sua conversão ao islã – o que não mudaria em nada o seu final, obviamente. Ao fim, o decapitaram. Na vida real, Bowser vence os irmãos Mario e Luiggi.

Mas… e quem mata o Bowser? Pois é, a Princesa (digo, Rainha). Numa jogada de mestre, a senhora Sabla conseguiu reunir suas tropas com os portugueses restantes e os homens que defendiam o reinado de seu filho, o Imperador Gelawdewos (repete 3 vezes e ele aparece). Fatality no Ahmed. Peach wins.

E se você ficou interessado pelo nosso querido herói e vilão Dom Cristóvão e quer ler relatos da época, há um livro com o pequeno título de “Historia das cousas que o mui esforçado capitão Dom Cristóvão da Gama fez nos reinos do Preste João com quatrocentos portugueses que consigo levou” (1564), no qual Miguel de Castanhoso, relata este episódio.

3 comentários sobre “Pirataria à moda portuguesa

  1. Pingback: Joguinho português-malaio-indonésio | Km82

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