Elogio ao ócio e à pescaria

No Sri Lanka, estou entregue à auto-indulgência. Perdão pelos dias sem fazer nada, pelo estouro no orçamento, pela preguiça, pela gula, pelo livro não lido, pelo post perdido, pela cidade não visitada. Perdão aos homens de preto por não ter feito a minha parte e, mesmo que não o receba, não me importo. A clemência, aqui e agora, vem automática, porque tem praia e água de coco por perto. Eu me perdoo.

É nessa que me dei ao direito de experimentar a inércia extrema. Ir até a praia e voltar para comer, dormir, balançar pro céu em uma rede.

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Rekawa é um vilarejo ao sul da ilha e tem lagoas, pântanos e a praia, perigosa como Saquarema. Gosto da combinação: coqueiros, praticamente nenhum turista e praia com mar forte e vento. E sempre há animais ao redor. Os siris e os cães vadios são onipresentes. Nas áreas alagadas, há búfalos afundados na lama, sapos, grandes lagartos, garças brancas, cágados e caranguejos. No mato, pernilongos, macacos, coelhos e alguns outros roedores os quais ignoro os nomes.

Do mar, a grande surpresa são as gigantescas tartarugas marinhas. Pode-se esperar a noite inteira pra ver uma. Fui à praia dia desses preparado para dormir lá, mas tive sorte. Às 11 horas da noite, aparecia uma para por seus ovos. Quem estiver por ali é orientado a não acender lanternas e há que esperar o dinossauro abrir um buraco fundo na areia, o que leva cerca de 20 minutos. Só após os ovos enterrados é que os guardas do centro de preservação ligam suas lanternas de luz vermelha, frequência não enxergada por elas.

Mas a grande sensação desse pequeno vilarejo e que parece já estar ganhando o mundo tem um nome: Gustavo Borges. Vou contar uma historinha: existem coisas que você pode fazer no Brasil como ir à praia, beber água de coco, comer jambo, pescar, surfar, procurar por tartarugas marinhas. Só quando a gente viaja parece ver a possibilidade de que essas coisas façam parte do nosso dia-a-dia ou pelo menos de uma breve experiência. Nunca havia surfado, nem comido jambo, nem pescado. Aviso de antemão que o surfe foi um fiasco e o jambo (que também chamado de “jambo” no Sri Lanka) estava maduro. Já a pesca, ah a pesca…

Estou na casa de uma família com três filhos e dois cachorros. Há três quartos que são alugados para quem passa por aqui. Os próprios membros da família e alguns amigos os trazem alguns pescados, leite dos búfalos, frutas e a comida é preparada pelos pais. É deliciosa e picante do jeito que eu gosto. Vim para um único dia e o excesso de simpatia e leite de coco no curry me fez ficar seis até agora. Juro, pela enésima vez, vou embora amanhã.

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Da esqueda p/ direita: Prianthi, Ravindu, Eva (França), Kandu, eu. Abaixo: Ricardo (Guiana Francesa).

 

Mas aí que num dos dias eles perguntaram para mim e um viajante espanhol: “vocês não querem pescar?” Sim, queremos. Fomos com um pescador do vilarejo no dia seguinte, pela manhã. Como disse antes, nunca havia pescado, muito menos em alto mar. Lembro do meu pai ter uma vara de pesca em casa atrás da porta do banheiro, mas isso era algo que me daria bocejos e alguma ânsia de vômito, pensava. Sobre a ânsia de vômito, a experiência comprovou que a fantasia era real. De resto, a pesca não só foi ótima como me fez o homem mais famoso de toda a Ásia e quiçá do mundo. “O matador de peixes”, dizem uns. “O mago do mar”, dizem outros. Eu digo, com minha humildade leonina, que sou só “amigo de Iemanjá”. E pra ilustrar isso, vai aí o resultado.

Pescador profissional: 1 peixe.

Pescador não-profissional espanhol: 1 peixe.

Não-pescador não-profissional brasileiro de primeira viagem: 5 peixes. Variadas espécies.

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EPIC WIN

 

Saí com Dorival Caymmi na cabeça e voltei com Eye of the Tiger.

Neste momento, estátuas estão sendo construídas em meu nome. O nome do barco era Bright Future.

Minhas lindas pernas, Kandu (o pai) e Tommy (o cachorro fazendo ioga).

Minhas lindas pernas, Kandu (o pai) e Tommy (o cachorro fazendo ioga).

4 comentários sobre “Elogio ao ócio e à pescaria

  1. Adoreeeeeei!
    Ócio e pescaria, duas coisa tão simples e tão mal aproveitadas por nós….. To feliz por vc.
    Agora, quanto aos 5 peixes……. Não será história de pescador? Kkkk
    To de sacanagem…
    “Mandô benzão”!
    Bj

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