Das cores que a gente perdeu

Visitando a Grécia e Turquia, onde se concentram as maiores obras ainda observáveis de tradição helênica, é possível ver ainda – quando alguém chama atenção para o detalhe, claro – um resquício de pintura em uma ou outra peça. Pois é, ao chegar muito perto daquelas tradicionais esculturas de mármore branco, chega-se à estranha conclusão que os artistas da época não o queriam propriamente branco. Aparentemente, muitas das as esculturas gregas e romanas eram sim pintadas e com cores fortes.

Com o uso de raios ultravioleta e luz negra, arqueólogos conseguiram encontrar as cores originais. Segundo um artigo de Christopher Reed, na Harvard Magazine,  esse processo “pode dar ideias de padrões de pintura mesmo que os pigmentos não tenham sobrevivido”. A pintura dessas reproduções parece ser extremamente fina, fraca, com poucas pinceladas de óleo. “Pode-se identificar os colorantes – a maioria feita de minerais e plantas”, completa outro pesquisador, Ebbinghaus. “Se os minerais tivessem sido moídos com mais cuidado, com diferentes concentrações, a pintura tivesse sido polida ou coberta por alguma solução protetora, o trabalho teria um efeito bem diferente e duradouro”.

A descoberta é um tapa na cara da sociedade de tantas escolas de arte que seguiram os modelos clássicos, como durante Renascimento, sempre baseadas na aparência das mesmas quando vistas em puro mármore. Até hoje a gente ainda vê assim, não? Então, esculturas de deuses gregos, segundo simulação da própria publicação de Harvard, seriam mais ou menos assim:

Esculturas gregras com pinturas

Já era de se esperar que historiadores de arte se digladiassem por causa disso. E não foi até as publicações do arqueólogo alemão Vinzenz Brinkmann, no final do século XX e início do XXI, que ficou provado que de fato as pinturas faziam parte da arte dos gregos e romanos. Dessa vez, as provas eram muito mais concretas, com o uso de diversas técnicas para analisar os pigmentos. Dali em diante ficou claro que as pinturas não eram apenas um detalhe. Eram norma, e não exceção, o que inclusive explica que o famoso Pathernon fosse praticamente todo colorido. Conseguem imaginar?

Pintura no Pathernon

Usando um pouco a razão

Mas, de fato, não há qualquer razão para acreditarmos que as cores que vemos hoje em obras passadas tenham as mesmas matizes de antigamente. E aí mora mais um perigo: será que as obras de artistas mais recentes como Picasso, Matisse, Gauguin, Van Gogh, para não citar tantos outros, também perderam suas características originais. A resposta é óbvia.

Van Gogh colour fading

Original / Atual

Em alguns museus, como o de Van Gogh, em Amsterdã, é possível observar esse processo de deterioração das obras e que as faz ficar com aspectos diferentes, sobretudo nas cores amarelas e avermelhadas. E aí que as vezes a arte imita a natureza: os girassóis amarelados de Van Gogh, por exemplo, com suas cores vivas, esmaeceram até um tom amarronzado. O que aconteceu nesse caso foi que o pintor misturou um pó branco – não é o que você está pensando – à tinta amarela, baseada em sulfato, e que oxida principalmente quando em contato com a luz solar.

Visão atual da obra

Visão atual da obra: um quarto azulado.

Como deveria ser

Como era: um quarto… lilás.

É… não adianta espernear. O tempo pirraça.

 

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