Viajando com transporte gratuito

Em fevereiro de 2006, marquei uma viagem com amigos para um vilarejo no sul da Bahia. Não vingou. Um a um começou a arranjar empregos e minhas férias estavam fadadas a serem mais do mesmo, no Rio.

Uma semana antes de ficar de pernas pro ar por 20 dias, o travel bug começou a incomodar e entrei no site de algumas companhias aéreas. A Gol estreava um voo internacional a um preço baixíssimo. O destino: Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A chamada piscava em um banner animado no topo da página.

Bolívia? Queria ver o deserto de sal, claro. Mas e o resto? Não sabia muito. Comecei a entrar em vários sites e pegar dicas de viagens. No dia seguinte tinha a passagem comprada por impulso e um roteirinho que virei a noite fazendo.

Dei sorte, era carnaval e, portanto, iria aproveitar as festas no país. A criançada andava pelas ruas munida de balões cheios d’água. Viajantes como eu eram o alvo preferido. Em algumas regiões, a ideia era usar balões com tinta mesmo e já especulava sobre a possibilidade de andar como o incrível Hulk por alguns dias. Os motoristas cobriam os ônibus de lama pra que a tinta não aderisse e estragasse a pintura original – que geralmente consistia em um bando de palavras em japonês, explicadas pelo fato do governo do Japão ter vendido ônibus velhos para a Bolívia inteira na época. Vai entender.

De Santa Cruz, fui à linda e generosamente branca capital constitucional, Sucre, seguindo para a cidade que um dia ostentou o título de “A mais rica do mundo”, Potosí, com suas minas de carvão (que já foram repletas de ouro e prata) e igrejas barrocas. Logo após, chegava à famosa região do salar de Uyuni. Estava gripado, mas consegui aproveitar cada momento de um dos lugares mais bonitos que já visitei. No caminho, me uni a um argentino, o Juan, que iria de trem até Oruro e, de lá, trocaria pelo ônibus em rumo a La Paz. Seria uma operação inusitada. Na cidade de Oruro, preparava-me para enfrentar uma multidão nas ruas. É lá que acontece a maior festa de carnaval da Bolívia, as diabladas de Oruro – foliões ornados com chifres, serpentes, olhos gigantes e o que mais puder causar furor nos católicos mais fervorosos .

Uma volta em Oruro

Na estação de trem, então, tomamos um táxi para o terminal de ônibus. De fato, a cidade estava parada, mas estranhamente vazia. A festa se concentrava em apenas uma parte do centro e muitas ruas estavam fechadas. No caminho, o motorista parou e pegou mais um passageiro boliviano que aparentemente ia até o terminal também. O novo membro se sentou no banco da frente. Estranhei o movimento mas pensei ser comum na Bolívia.

Mais adiante, o carro parou novamente. Dessa vez, um policial à janela. Esticou o pescoço para dentro e nos perguntou de onde éramos. Diante da resposta, perguntou sobre nosso roteiro. Interrompeu meu discurso no meio. “Estamos buscando turistas nessa região, investigando um assassinato de uma australiana, justamente em Santa Cruz de la Sierra. Vamos conversar”. Entrou no táxi. O boliviano foi se sentar no banco traseiro e o policial se acomodou ao lado do motorista, a quem dirigiu rápidas e inaudíveis palavras. Virou-se para trás e olhou-nos fixamente com a clara intenção de nos intimidar. “O que tem nessa mochila?”. Respondi de imediato, “passaporte, um casaco…”. Enxergava meu rosto assustado espelhado em seu impenetrável óculos escuros. O homem esticou a mão, puxando minha mochila. Agarrei-a de volta. O movimento me fez sentir um pouco tonto pelo nervosismo.

“O quê?”, perguntava ele indignado apontando o queixo em minha direção, “preciso revistá-lo”. Pedi sua identificação. Acho que não esperava que falasse bom espanhol. O portenho Juan estava quieto. Parecia petrificado. Mostrou-me a credencial de longe. Sendo verdadeiro ou não, não conseguiria dizê-lo. Alguns segundos de silêncio e a indagação do policial continuava no ar. Disse a ele que só poderia me revistar diante de outros policiais e que tinha ouvido histórias de golpes com falsos policiais, o que pareceu incomodá-lo. O carro girava pela cidade. Claramente o motorista não seguia qualquer rota para o terminal de ônibus. O policial virou-se para trás impaciente e falando alto: “Escuta, eu não quero saber de histórias. Estou investigando um caso e exijo respeito. O motorista está nos levando para a delegacia e lá você será revistado, sim”.

Senti muita raiva. Sabia que seria praticamente impossível sair do que, tinha quase certeza, ser um golpe. Tinha ouvido muitas histórias semelhantes que terminaram mal – os falsos policiais retiravam também as bolsas de dinheiro que comumente viajantes levam escondidas na cintura. O sangue subiu à cabeça e não pensei nas consequências. Comecei a gritar ao motorista. Algo como: “você não vai me levar para uma comisaria, você vai me levar de volta para a estação de trem… lá esse homem pode me revistar”. Usava o dedo em riste e batia em seu ombro irritantemente. Pensava ali, “qualquer policial de verdade já teria me algemado ou algo do tipo. Que autorização tenho eu para enfrentar as autoridades do país: E se ele tem uma arma? Não deve ter, já teria mostrado”. Tudo isso em segundos. Continuei na investida, repetia como uma criança: “estação de trem, estação de trem”. E o policial, estranhamente contido. Nervoso, mas contido.

O carro parou. “A delegacia”, apontou com a cabeça, “vamos”. Meu coração saltou.

Olhei para fora. Uma casa velha, com janelas e portas fechadas. Madeira carcomida. Um sobradinho perdido em uma rua qualquer. Mirei no argentino como quem dissesse: “fala alguma coisa, Exu!”. Ele tinha os olhos esbugalhados já de nascença, mas pareciam ainda mais protuberantes diante da situação. “Não vou sair, ninguém vai me revistar aqui”, gritei. O policial com sua pose autoritária tentava me fazer sair e, furioso, entrou no carro de novo. Bateu a porta com força, indignado. O carro voltou a andar e a discussão estancou novamente, mais agressiva. Enquanto esbravejava, já no modo automático (nível barraco-tentando-cancelar-a-NET), pensei no outro boliviano. Até hoje não entendo o papel dele ali, mas é quase certo que pelo menos o motorista estava envolvido. Agora, seguia as novas coordenadas do mequetrefe. Situações como essa me dão uma clareza nas ideias absolutamente anormal, como se o tempo se alargasse e ali eu pudesse elucubrar livremente sobre as melhores saídas. Lembro de pensar friamente sobre a falta de profissionalismo do ladrão – “se fosse eu, já tinha puxado todo mundo à força e acabado com essa palhaçada”. 

O carro parou novamente. Dessa vez, o homem não esboçou uma palavra. Levantou-se do banco, abriu a porta. Saiu sobressaltado em direção à mala do carro. Dessa vez, resolvi sair também para pegar minhas coisas a tempo. O argentino seguiu atrás, tímido. O policial/ator jogou nossas mochilas no chão. Parecia ter pressa. O homem fechou o porta-malas como quem não tem geladeira em casa e, para minha surpresa, correu de volta para dentro do carro. Xingou-nos de várias formas. Não guardo as palavras na memória – credito ao nervosismo e às variadas formas de xingamento que só a língua espanhola pode oferecer. O motorista arrancou com uma breve cantada de pneus. Olhei para os lados, a rua estava vazia. O argentino, “dios mio”, passava a mão no cabelo ralo, incrédulo.

Olhei para minha mão que tremia num recém-adquirido Mal de Parkinson e virei-me para o Juan. “Bate aqui! Saímos vivos!”, comemorei.

Alcançamos nossas malas, no meio da rua. Uma senhora passava andando devagarinho ao longe. Andei até ela, sentindo ainda as pernas bambas. “Senhora, onde fica o terminal de ônibus?”. “Ali, nessa rua de trás”, respondeu.

Chegamos ainda a tempo para a saída do último ônibus para La Paz. O táxi foi de graça.

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