A moral dos trens

O sistema de trens na Índia é super complexo. De qualquer maneira, funciona bem, considerando um país de mais de 1 bilhão de pessoas. Aprofundei-me na arte de entender esse sistema. Fui apresentado às Indian Railways há 6 anos atrás, na minha primeira visita à Índia. Dessa vez, foi só relembrar, refazer cadastros e instalar aplicativos. O fluxo de aprovação é burocrático e tenho ajudado quem tem dúvidas nos albergues em que fico. Mesmo um expert no assunto pode falhar. E quando falha, vale muita criatividade considerando os limites de cada um – os meus são bem elásticos.

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Veja bem, a Índia não é um país fácil e é o que faz de lá um “ame ou odeie”. Quem atinge a superfície, vê primeiramente o lixo que se espalha nas ruas, os riachos de esgoto e extrema miséria. Com um pouco de paciência e bom humor, descortina-se uma malha muito mais complexa que a ferroviária. A das regras não ditas. A mais conhecida e incompreendida delas: o sistema de castas. Explicar isso a um estrangeiro é difícil mas os próprios indianos têm dificuldade de entender toda a complexidade na imensidão de castas, sem começar a falar de religiões e línguas em que vivem. A Índia é uma colcha de retalhos, é muitas nações em uma só e acabou sendo desenhada e redesenhada durante a história, desde as invasões arianas até os ingleses e as posteriores separações do Paquistão Leste (hoje, Bangladesh) e oeste (o Paquistão Paquistão).

Existe um trecho de “O Tigre Branco” do escritor Aravind Adiga, que ajuda a explicar, com boas doses de ironia, um pouco dessa dinâmica que foi mudando no último século.

Vamos começar comigo. Veja: Halwai, meu nome, significa “confeiteiro”. Essa é minha casta – meu destino. Todo mundo que ouve meu nome sabe tudo sobre mim de uma vez. É por isso que Kishan e eu continuamos pegando trabalhos em confeitarias em qualquer lugar que vamos. O dono logo pensa: “Ah, eles são Halwais, fazer doces e chá está no seu sangue”.

Mas se somos Halwais, por que meu pai não era confeiteiro e sim motorista de riquixá. Por que cresci quebrando carvão e limpando mesas, em vez de comer gulab jamuns e doces confeitados quando e onde quisesse? Por que era esguio e escuro, e não gordo de pele clara e sorridente, como um garoto crescido à base de doces deveria ser?

Vê, esse país, nos seus tempos gloriosos, quando era a nação mais rica do mundo, era como um zoológico. Um zoológico bem cuidado e limpo. Todo mundo no seu lugar, todo mundo feliz. Ouríveres aqui. Vaqueiros aqui. Donos de terras aqui. O cara chamado Halwai fazia doces. O intocável limpava as fezes. Os senhores eram gentis com seus servos. Mulheres cobriam suas cabeças com um véu e viravam os olhos para o chão quando falavam com um homem estranho.

E aí, graças a todos aqueles políticos em Delhi, no dia 15 de agosto de 1947 – o dia em que os britânicos foram embora – as jaulas foram deixadas abertas, os animais atacaram e rasgaram uns aos outros e a lei da selva ocupou o lugar da lei do zoológico. Aqueles que eram os mais ferozes e famintos comeram todo o resto e desenvolveram grandiosas panças. Isso era tudo o que contava agora, o tamanho da sua barriga e não mais se você era mulher ou muçulmano ou um intocável: qualquer um com uma pança pode subir na vida. (…)

Em resumo – antigamente existiam mil castas e mil destinos na Índia. Hoje em dia, só existem duas castas: os homens com Grandes Panças e os com Pequenas Panças.

E dois destinos: comer… ou ser comido.

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Naquele dia quente de 28 de dezembro, véspera do ano novo, eu sentava em Margão, cidade em Goa, e esperava por um trem que viria à noite. Eu, o dito expert dos trens indianos, tinha a minha frente um aviso na tela do celular. Quando comprei minha passagem, estava na WL26, isso é, lista de espera com 26 pessoas.  A tal lista ia descendo rapidamente com os cancelamentos, o que é muito comum. O trem chegaria às 21h30 e, às 18h, das 26 pessoas, só havia uma na minha frente. Era um cancelamento e eu estava dentro. Mas o destino quis que a lista fechasse comigo de fora. Olhava incrédulo a TV de plasma na estação e lá estavam as letras em vermelho: GUSTAVO BORGES – WL1. O que se faz nesse momento?

A etiqueta infame do indiano moderno é simples: suborne o guardinha do trem que ele arranja um lugar. Não foi em nenhum lugar e não seria aqui que eu me renderia tão fácil ao método. Confesso, doeu não tê-lo feito. Comprei então uma passagem para a temida segunda classe – leia-se última classe. Tinha viajado antes mas não assim de noite e por tanto tempo. Era o único jeito de fugir dos preços altos de Goa em alta temporada e entrei no vagão.

Não há qualquer comparação possível para o que se passa em um trem no Brasil, nem na maior parte do mundo – dentro da minha experiência. Há pessoas das classes e castas mais baixas, muitas sem calçado, sentadas no chão, amassadas nos assentos, enroladas às malas. Mais que isso, há pessoas dormindo no lugar das malas – sabe aquele pequeno friso no alto dos vagões onde cabem só as mochilas? Não há espaço pra respirar. O sofrimento, ao mesmo tempo que une aqueles terráqueos fisicamente, uns deitados nos outros sem ao menos se conhecerem, os separa, quando por exemplo alguém tenta se alongar demais, tal qual moléculas em reação química. Brigas são comuns. Aos poucos o povo é vencido pelo cansaço e consegue cochilar. Sentei-me no chão sujo. Encostei-me em outro sujeito, que se apoiava em outro e assim por diante. Um dominó de corpos semi-adormecidos. Os olhares curiosos de “tem um branco aqui” logo se dissiparam e a mensagem uníssona era “chega pra lá”. Um deles se vestia como um peregrino hindu, ouvia música em um celular Nokia e cantava de vez em quando. Outros estavam ali por algum tipo de ilegalidade e puxavam o gancho de emergência para jogar mercadorias ou mesmo sair no meio dos trilhos pela noite a qualquer sinal de polícia. Lembrei-me na noite no trem do Djibouti, mas o que existia de compaixão lá, faltava e muito aqui. São milhões de pessoas que lotam esses vagões todos os dias e que vivem abaixo da linha da miséria. Aquela é uma gente semi-escrava e trabalha quase de graça para uma elite extremamente corrupta, o que levou a alguns extremismos, como os Naxals, uma bizarra guerrilha maoista que atua no país há muitos anos. Tudo isso me leva a crer que o Brasil seguiu por caminhos menos tortuosos – por caminhos mais fáceis também já que temos apenas um sexto da população deles e dobro de território.

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Na pobreza a casta lhes sai caro. Na riqueza, nem tanto. Apesar de ser proibida pela constituição indiana, discussões em torno delas são bem comuns e muitas vezes baseadas em sistemas mistos muito complexos – leva-se em consideração a cor da pele, a origem, o sobrenome, as feições. Não é à toa que a Índia é o país que mais consome produtos clareadores de pele. Acredite, eles estão por todos os lados.

Determinadas castas não podem por exemplo sentar-se à mesa com membros de castas superiores. Outros não podem ser cozinheiros – são considerados sujos demais para tocar na comida dos outros. Quando não se tem argumentos, vale usar uma ideia não compreendida por absolutamente ninguém para dividir as pessoas: a alma. A alma dos intocáveis na Índia é pouco evoluída, como foi no Brasil a alma dos índios, dos negros e por aí vai. No entanto, a principal barreira por lá é sem dúvida a do casamento, ainda hoje, mesmo em cidades ditas modernas.

Há, é claro, pessoas que conseguiram furar essas barreiras culturais. Muitas, aliás. E o que acontece com elas? Bom, como o escritor indiano citado acima diz: hoje em dia, na prática, há apenas duas castas. E os sujeitos com “Grandes Panças” podem absolutamente tudo, inclusive lotear e roubar o país (alguma familiaridade com essa última observação?).

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Já fazia mais de 5 horas que estava no trem. Faltavam 7 ou 8 horas para chegar a Kochi, meu destino final. O corpo inteiro dormente e já não havia qualquer possibilidade de me mexer. Como conseguiam quase todos os dias enfrentar esse tipo de humilhação? O que faz com que eles permaneçam ali e não se revoltem? O que faz com que tenham qualquer esperança de mudar de vida? O comboio parou mais uma vez. Resolvi sair do lugar, meus pequenos centímetros quadrados no chão, que foram prontamente ocupados por uma mulher exausta. Tinha muito sono, mas não conseguia dormir. Cheguei com muito esforço até a porta do vagão para respirar. Lá fora, a estação fedia a urina. Um garoto andava sozinho no escuro com um grande saco nas costas. Jogou-se nos trilhos da frente. Assustado, estiquei o pescoço para vê-lo. Andava pelos trilhos sem qualquer medo e agachava-se para pegar pequenos pedaços de comida na lama. Qualquer quentinha, saco de salgadinhos, latas, qualquer resto servia. Abria, verificava se tinha algo, colocava na boca e jogava de volta. O que parecia ser maior, salvava para mais tarde e colocava no saco. Meninos que comem como porcos. Privados dos tomates de Ilha das Flores.

Sem qualquer resistência diante da cena, voltei para o vagão. Peguei minhas coisas e saí. Não sabia onde estava. Fui de encontro à luz mais próxima. Uma placa dizia: Mangalore. Olhei no mapa, estava longe ainda. Eram 3 da manhã e meia dúzia de pessoas esperava por outro trem. Passaram dois e eu ainda estava meio atônito, sem saber o que fazer. Saí da estação. Parei em frente a uma televisão. Tocava o novo hit de Bollywood. No filme, Vemal e Priya estão fugindo de bandidos em uma estrada, agora perdidos no meio do nada. Enquanto param para descansar, acabam conseguindo uma carona na boleia de um caminhão. Priya então começa a cantar e dançar ‘Kukkuru Kukkuru’.

Observei o vídeo até o final. Voltei para a estação. Olhei para outro trem chegando. Subi e perguntei a uma senhora para onde ia. Cobrou-me o bilhete. “Não tenho”. Voltei para a plataforma e esperei que saísse. Subi novamente e deitei-me em um vagão com cama. Ninguém veio me incomodar. A cama estava vazia e só lembro do dia seguinte de manhã, quando o trem já se aproximava de Kochi.

Mas ficaram lá perguntas sem resposta. O que fazia com que aquelas pessoas não fizessem o mesmo que fiz – invadir o vagão de uma classe superior – ou pior? O que fazia com que um menino comesse restos na lama e não tentasse roubar uma mochila? Por que seres humanos são tão morais quando o que precisam são total amoralidade? E por que são tão amorais quando não precisam mais? Aquelas regras não ditas, as linhas invisíveis. Agora entendo por que não as entendo.

“Todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais que os outros.”

– A Revolução dos Bichos (George Orwell)

2 comentários sobre “A moral dos trens

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