Wanted

Acabei de entrar correndo em um restaurante chique. Pedi um iogurte grego com frutas. A primeira coisa que veio aos olhos. Zero vontade. Ainda não sei o que fazer.

Hoje despertei tarde, depois de tantas noites mal ou não dormidas em que passei andejando por caldeiras e vulcões de Java (merecerão um texto à parte). Tomei café da manhã, que teve gosto de almoço porque veio com arroz, e saí com a moto alugada nesses dias para vaguear por uns campos de arroz aqui perto. Gosto de terraços de arroz, falei?

Há uma rua principal no centro de Ubud, em Bali, que é uma cilada para turistas. Alguns trechos se tornam, de hora pra outra, via de mão única. Vi os sinais mas os outros motoristas continuavam a cada um desses trechos ignorando o aviso, coisa que não é de impressionar quando se trata de Indonesistão. Resolvi seguir e a Sorte, entidade essa que distribui desgraças e bilhetes premiados dia sim e dia sim, me regalou um policial em busca de muitas coisas, como todo ser humano, e também uma pequena fatia do meu orçamento. Enquanto passava o sermão, o filme rodava na caixinha, “ele vai pedir propina”.

Ele pediu propina. Mas eu sou só insolência. Um desastre pra lidar com autoridades. E quando me chamaram para trás do balcão, me pediram para sentar-me em uma cadeirinha modesta branca de plástico que deve ter vergado quando caí debruçado de impaciência, fiz o que sempre faço. Uma criança contrariada fazendo birra começou a falar alto para quem pudesse ouvir, “eu não vou pagar propina”.

“Propina?”, repetia ele, fingindo não entender o meu inglês subitamente. O sujeito ia mudando de cor, mandou-me ao outro lado da rua. Quanto mais gaguejava mais sentia eu que a vitória era certa – amigos, não fazer isso em casa. Uma salinha descaracterizada, podia ser qualquer coisa em qualquer lugar em qualquer mundo. Ao mesmo tempo, um outro estrangeiro chegava. Salinhas anônimas como essa devem existir em qualquer civilização extraterrestre, são escritórios completamente universais, pensei, um branco virando amarelo virando cinza. Rodou também o australiano. Enquanto insistia na minha lógica, ele, não tão jovem assim para estar vestido daquela maneira, dizia “não adianta, eu moro há 20 anos aqui, tem que pagar propina sempre”. O policial ameaçava, “vai ter que ir pra corte então e pegar o documento daqui a duas semanas”. E começou um outro longo sermão falando que era uma autoridade e precisava ser respeitado como tal. Ei, eu não estaria ali em duas semanas. E enquanto falava, o oficial balançava o documento da moto nas mãos e me caiu como uma luva aquela sacudidela no ar daquele documento que descobria também estar vencido. Um estalo. Caiu como uma luva porque quem disse que eu me preocupava com aquele documento? Insisti que se o problema também fosse documentação vencida então a culpa era do senhorzinho ali do lado que me alugara a… “que senhor?”, “aqui do lado, na esquina, posso chamá-lo”, “vai lá então e volta pra gente resolver” – e virou-se para barganhar sua propina para o gringo-dos-20-anos-morando-em-Bali.

“Fica comigo até você voltar”, interrompeu para dar um último aviso sobre o papel.

Saí da sala e vislumbrei a possibilidade de ir até a lojinha não a pé, mas de moto. Como os outros policiais achavam que tinha arregaçado a carteira, saí sem problemas, com direito a sorrisos de ambas as partes e um breve aceno inseguro de um auxiliar. Recorri toda a conversa e não havia qualquer coisa que me obrigasse a voltar lá, qualquer informação que me identificasse. Então, fugi. Sim, fugi. E imediatamente devolvi a moto e melhor ficasse assim.

Havia um novo vendedor na loja. Não sabia o que dizer sobre o documento e não queria ter que voltar ao guarda e acabei não dizendo nada. Despedi-me. “Paguei já, paguei”, mostrando a receita. Andei rápido. E numa olhadela para trás, o vendedor verificava possíveis arranhões na moto e, como quando se acorda segundos antes do despertador matinal e sentimos o prenúncio do sonzinho irritante, via-o abrindo o assento e verificando se o papel estava lá, mesmo olhando na outra direção. Sentia como se uma pedra voasse na direção da nuca e, antes que acertasse, adentrei um restaurante. Sentei-me à paisana.

Aqui estava a salvo afundado no iogurte grego. Vontade nenhuma de comer. Por que eu não contei sobre o documento ao sujeito? Ah, para não ter que ir à polícia. Sabe, gosto de terraços de arroz. Um toque no ombro, “o senhor sabe onde está o documento da moto?”, era o vendedor tímido, desculpando-se de antemão, a voz mal saía. Fingi não entender, preciso de tempo para responder. “A moto, o documento da moto…”, esperava. Respondi cambaleante, “ah, o documento estava vencido, parece que está na polícia”, é preciso falar com o dono da loja. O homem hesitou como se visse um fantasma e respondeu mecanicamente que falaria com o chefe e voltaria para que a gente visse isso.

Saiu do restaurante, paguei a conta rapidamente e andarilhei por entre as ruas que não tinham saída para lugar algum. Era procurado por um policial e agora por um locador de motos. Encontrei outra loja, aluguei outra moto, mudei de nome – chamo-me Geraldo – e passei na frente dos dois lugares proibidos – não havia outro jeito. Fechei o capacete, acelerei e me senti um bandido por um dia, uma excitação que não durou mais que uma ou duas horas. Tô falando, esses campos de arroz encharcados, refletindo o céu, fazem milagres. São de deixar qualquer um a esquecer da vida. Que calorão.

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