Esse papo chato de viajantes

Nômades, viajantes, backpackers, globetrotters a pilha de novas denominações para quem opta por anos sabáticos ou trabalho à distância cresce a cada dia. Com elas, as associações simplistas com uma certa geração Y, Z ou qualquer outro botão de um console Nintendo. Gerações essas que, por serem superiores a você, não pensam em dinheiro e sim na felicidade, no valor da experiência, no amor e as borboletas do Laos.

Por que será que a nossa geração não pensa tanto em dinheiro? Talvez por que não precisamos pensar, certo? Mas não. Os tais artigos, geralmente em formatos de listas (ex. 11 coisas que…), creditam isso a um desprendimento incomum do viajante, uma espécie de superioridade moral digna de um monge budista.

Balela. Viajar pode ser mais barato do que pensamos antes de sair de casa, mas não é propriamente barato se você largou o seu emprego ou não guardou nenhum dinheiro para isso.

Somos mimados
Olha só, eu sou um viajante, larguei emprego, bens pessoais e lá vai fumaça. Mas nada me apaga da memória que nasci numa família de classe média alta, frequentei boa escola e universidade e tive tudo do bom e do melhor. Posso até ter juntado um dinheiro para usar agora com barba na cara e 30 anos de idade – aliás, outro dia bem vi um fio de cabelo branco, achei lindo. Voltando ao tema, podem ter certeza que se a situação em casa fosse mais dura, uma viagem mal passaria pela minha cabeça.

O neoepicurismo de boa parte dos viajantes não dura nem a primeira noite numa favela em Nova Delhi ou uma aldeia desnutrida na Etiópia. É claro, há muitas e muitas exceções, mas na internet, a grita maior está em torno desse novo sentimento de liberdade e que para mim soa como exclusivo demais. Quer dizer que para ser feliz necessariamente você tem que abdicar de família, casa e trabalho e sair por aí?

Wanderlust é o novo Carpe Diem. E se você não entrou nessa, vão tentar lhe fazer se sentir menor por não estar de braços abertos no topo do Everest.

Obs: viajar é bom para cacete.

2 comentários sobre “Esse papo chato de viajantes

  1. Primeira vez que leio sobre algo que já vinha pensando há algum tempo. Já tem até venda de curso sobre “como ser um nômade digital”, ou de pacote de viagem estilo mochilão. Oi?! Viajar é ótimo. Passar um bom tempo longe de casa também. Mas nem todo mundo pode, quer ou precisa disso. Essa cobrança wanderlust-way-of-life tá chata demais. Sejem menas, pfv.
    Ah, adorei o texto. Me ganhou já na primeira palavra… “”””nômades””””. Com muitas aspas sim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s