Os donos da palavra

Dá um orgulho esse negócio de não ter mais páginas no passaporte.

Foi na capital do Timor Leste, Díli, que descobri: teria que trocá-lo ou já não haveria como entrar em outros países. Para minha sorte, o Brasil ainda mantém relações muito próximas com o país, que tem o português como uma das línguas oficiais. A embaixada era logo ali do lado da casa de um amigo, onde fiquei hospedado.

Num dia quente – todos os dias são dias quentes em Díli – saí e fui lá resolver o pepino tão bem-vindo. “Um passaporte cheio”, apreciava, girando as páginas na mão, como uma criança ao completar um álbum de figurinhas. Conversava com o responsável pelas atividades culturais da embaixada, o Gilberto Gasparetto, também músico, compositor, ator e detentor de muitas histórias. Sua mulher, também brasileira, dá aulas de português. Falávamos sobre a apresentação de um documentário há alguns dias atrás sobre o Manoel de Bandeira, trabalho feito pelo jornalista Claudio Savaget. O Claudio apareceu logo depois. Simpático, falava empolgado de sua nova empreitada: ir ao interior de Maubisse e documentar os lian nais (donos da palavra). Em um movimento de íntimos amigos do passado, esticou o braço ao meu ombro: “não quer ir não, Gustavo? Você vai amar!”.

Claro! Eu ia amar.

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Próxima aventura: ficar em casa

Sou um sujeito sortudo. Ou melhor, talvez seja competente o suficiente para que a vida me faça um sujeito sortudo. Prefiro pensar assim para fins de: ~aumento de auto-estima~. Auto-enganar-se periodicamente faz bem, muito bem. Afinal, o universo conspirou para que eu fosse leonino, então que saiba lidar com sua criação. E leoninos são mestres em distorcer a realidade. Ampliamos trechos selecionados de um grande filme e projetamos insistentemente no alto dos prédios e dizemos “olha o que eu fiz”. Nunca cessamos de nos comportar como crianças de 3 anos.

Nos últimos tempos tive que lidar com uma difícil decisão: aceitar um (bom) trabalho no Brasil ou continuar viagem. Por diversos motivos, aceitei a primeira opção como destino dos próximos anos. Foi um embate interno apertado. De qualquer maneira, a China, a Mongólia, o Tajiquistão, tenho certeza, todos eles podem esperar um pouco mais.

“Mas você vai voltar depois de dois anos e vai arranjar emprego como? Vai ter que voltar a analista, vão baixar seu salário, vai estar fora do mercado”. Não aceitei a derrota certa como futuro e acho que apostei corretamente. Pode ser sorte mas, bico calado, não contem isso a um leonino.

“Olha o que eu fiz”. Olha. Um risco no mapa.

mapa final da viagem

Viajar pelo mundo é uma grande aventura. Voltar para casa pode ser também.

O blogue continua.

Esse papo chato de viajantes

Nômades, viajantes, backpackers, globetrotters a pilha de novas denominações para quem opta por anos sabáticos ou trabalho à distância cresce a cada dia. Com elas, as associações simplistas com uma certa geração Y, Z ou qualquer outro botão de um console Nintendo. Gerações essas que, por serem superiores a você, não pensam em dinheiro e sim na felicidade, no valor da experiência, no amor e as borboletas do Laos.

Por que será que a nossa geração não pensa tanto em dinheiro? Talvez por que não precisamos pensar, certo? Mas não. Os tais artigos, geralmente em formatos de listas (ex. 11 coisas que…), creditam isso a um desprendimento incomum do viajante, uma espécie de superioridade moral digna de um monge budista.

Balela. Viajar pode ser mais barato do que pensamos antes de sair de casa, mas não é propriamente barato se você largou o seu emprego ou não guardou nenhum dinheiro para isso.

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A psicologia dos vulcões

Vulcões são insensíveis às veleidades humanas, ridículas. Quem liga se uma cidade inteira vai queimar e ser acobertada por uma saraiva de cinzas? E os moradores que vão perder suas casas ou vidas ou filhos, amantes, penteadeiras, as noites bem dormidas? E os cãezinhos? Vulcões têm outra ética, outra substância, ignoram o que há ao redor. No mundo, digo, nesse mundo, não há inocência. E quem disse que ser enterrado em magma, saliva da Terra, pó derretido, quem disse que isso faz mal aos cãezinhos? E nós dormimos, dormimos por anos. Um trabalho que não é fácil, quando seguramos o firmamento por um lado – não é só o Atlas – e a torrente de lava por outro até que fique insuportável, até não cabermos em nós mesmos e transbordamos docilmente em orgasmos. E há quem pense em nós? Somos muito úteis, poucos reconhecem.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cada um de uma cor.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cores bizarras.

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O nome dos países

Se eu te disser que viajando já tive o prazer de pisar em países como Aotearoa, Hayastán, Shqipëria, Druk Yul, Hrvatska, Sakartvelo, Magyarország, Bhārat, você vai dizer que eu bebi e eu vou jurar que eu fui lá sim (e que bebi também, porque né). A verdade é que se o sujeito se chama Michael, em português a gente dá o nome de Miguel (tá, às vezes Maicon). William (ou Bill) no Brasil é Guilherme, Jean ou John é João e por aí vai. E é óbvio que a gente faz isso com nomes dos países e cidades ao redor do mundo. A maioria é bem reconhecível vai: Londres e London, quase a mesma coisa. Mas o que dizer de Hellas ser o verdadeiro nome da Grécia? E Montenegro ser Crna Gora? E de você não saber nem pronunciar essas porcarias?

Vamos às aulas, amigos!

Passo 1. Primeiro de tudo, vamos dar uma olhada em um mapa com os nomes nas línguas nativas.

Mapa com nomes dos países em suas línguas nativas.

Clique para ver e navegar no mapa.

Nesse mapa, apesar de interessante, temos um, ou melhor, dois probleminhas: os alfabetos estranhos e os países em que se fala mais de uma língua – e são muitos mesmo.

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Wanted

Acabei de entrar correndo em um restaurante chique. Pedi um iogurte grego com frutas. A primeira coisa que veio aos olhos. Zero vontade. Ainda não sei o que fazer.

Hoje despertei tarde, depois de tantas noites mal ou não dormidas em que passei andejando por caldeiras e vulcões de Java (merecerão um texto à parte). Tomei café da manhã, que teve gosto de almoço porque veio com arroz, e saí com a moto alugada nesses dias para vaguear por uns campos de arroz aqui perto. Gosto de terraços de arroz, falei?

Há uma rua principal no centro de Ubud, em Bali, que é uma cilada para turistas. Alguns trechos se tornam, de hora pra outra, via de mão única. Vi os sinais mas os outros motoristas continuavam a cada um desses trechos ignorando o aviso, coisa que não é de impressionar quando se trata de Indonesistão. Resolvi seguir e a Sorte, entidade essa que distribui desgraças e bilhetes premiados dia sim e dia sim, me regalou um policial em busca de muitas coisas, como todo ser humano, e também uma pequena fatia do meu orçamento. Enquanto passava o sermão, o filme rodava na caixinha, “ele vai pedir propina”.

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Joguinho português-malaio-indonésio

Os portugueses foram de uma ambição obscena lá pelos 1500 e 1600, a gente já sabe e já falei sobre isso num longo texto chato aqui. Mas agora, por esses lados (estou na ilha de Java), está caindo a ficha de que o império e as influências foram ainda maiores do que eu esperava. Vê só, as línguas da Malásia e da Indonésia são muito similares. E daí que nos dois países eu tenho encontrado palavras pra lá de familiares. Vai aqui uma listinha, tenta descobrir o que significa. Um ponto pra cada acerto, valeeeendoooooooo!

almari

baldi

bangku

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A moral dos trens

O sistema de trens na Índia é super complexo. De qualquer maneira, funciona bem, considerando um país de mais de 1 bilhão de pessoas. Aprofundei-me na arte de entender esse sistema. Fui apresentado às Indian Railways há 6 anos atrás, na minha primeira visita à Índia. Dessa vez, foi só relembrar, refazer cadastros e instalar aplicativos. O fluxo de aprovação é burocrático e tenho ajudado quem tem dúvidas nos albergues em que fico. Mesmo um expert no assunto pode falhar. E quando falha, vale muita criatividade considerando os limites de cada um – os meus são bem elásticos.

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Veja bem, a Índia não é um país fácil e é o que faz de lá um “ame ou odeie”. Quem atinge a superfície, vê primeiramente o lixo que se espalha nas ruas, os riachos de esgoto e extrema miséria. Com um pouco de paciência e bom humor, descortina-se uma malha muito mais complexa que a ferroviária. A das regras não ditas. A mais conhecida e incompreendida delas: o sistema de castas. Explicar isso a um estrangeiro é difícil mas os próprios indianos têm dificuldade de entender toda a complexidade na imensidão de castas, sem começar a falar de religiões e línguas em que vivem. A Índia é uma colcha de retalhos, é muitas nações em uma só e acabou sendo desenhada e redesenhada durante a história, desde as invasões arianas até os ingleses e as posteriores separações do Paquistão Leste (hoje, Bangladesh) e oeste (o Paquistão Paquistão).

Existe um trecho de “O Tigre Branco” do escritor Aravind Adiga, que ajuda a explicar, com boas doses de ironia, um pouco dessa dinâmica que foi mudando no último século.

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Ele existe!

Vim até Bornéu, aquela ilha que tem no tabuleiro do War, só pra vê-lo. E tive sorte. Não que seja muito complicado encontrar aqui o macaco proboscídeo – mais conhecido como macaco narigudo na minha roda de amigos. Mas o bichinho é tímido, o que torna complicada qualquer tentativa de aproximação no meio da selva.

Foi em uma das primeiras incursões à floresta que encontrei essa figura, no Parque Nacional de Bako, na parte malaia da ilha de Bornéu. Para os cientistas, nasalis larvatus. Para os malaios, bekantan ou o simpático codinome monyet belanda (macaco holandês). Como a Malásia foi ocupada por portugueses, holandeses, britânicos e japoneses, o povo daqui resolveu que o macaco narigudo com suas feições rosadas e barrigas protuberantes pareciam mais com os holandeses. Piadas racistas da época.

Macaco probscídeo dando um rolê

Macaco probscídeo (fêmea) dando um rolê

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Viajando com transporte gratuito

Em fevereiro de 2006, marquei uma viagem com amigos para um vilarejo no sul da Bahia. Não vingou. Um a um começou a arranjar empregos e minhas férias estavam fadadas a serem mais do mesmo, no Rio.

Uma semana antes de ficar de pernas pro ar por 20 dias, o travel bug começou a incomodar e entrei no site de algumas companhias aéreas. A Gol estreava um voo internacional a um preço baixíssimo. O destino: Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A chamada piscava em um banner animado no topo da página.

Bolívia? Queria ver o deserto de sal, claro. Mas e o resto? Não sabia muito. Comecei a entrar em vários sites e pegar dicas de viagens. No dia seguinte tinha a passagem comprada por impulso e um roteirinho que virei a noite fazendo.

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