Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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As tribos do Vale do Omo (parte 2)

Leitura: 10 minutos. O post é continuação da parte 1.

A aldeia começou a se mover toda para uma outra parte do vale. Fomos acompanhando. No caminho, as mulheres conversavam e mesmo todo o sangue e as cicatrizes não abafavam o clima leve de festa entre o grupo. Depois de cerca de 15 minutos chegamos a outro local, um platô arenoso cercado de árvores. Um grupo de homens trazia os touros para o centro do espaço. Nesse tempo, as mulheres continuaram a se aproximar dos mais jovens em provocação. E, em retorno, mais chicotadas e feridas abertas. Alguns turistas demonstravam querer desistir e uma senhora parecia se sentir mal. Sentou-se aos pés de uma árvore para se recuperar. Nesse momento, alguma alma bondosa parou para me explicar – até então não tinha lido muito a respeito e fui pego de surpresa.

A cerimônia do salto aos touros é um ritual de iniciação dos homens Hamar. A partir deste dia, podem se casar, por exemplo. Apenas um deles era o alvo da comemoração, que é, grosso modo, o que é o bar-mitzvah para os judeus. O adolescente tinha cabelo longo e cortado estranhamente só na parte da frente – a parte de trás do cabelo, levantada, excêntrica como um pavão. Chegou completamente nu, ao contrário dos outros. As mulheres da família (irmãs, mãe, primas, amigas e até avós) que desejarem mostrar seu amor pelo “debutante”, devem então fazer o tal jogo, oferecendo-se para receberem chicotadas. Quanto maior a implicância e a coragem dessas mulheres, maior é a demonstração de amor pelo parente que será, agora, considerado um adulto. Para isso, elas usam uma corneta feita de chifre de touro, mais estridentes que uma vuvuzela, mais enlouquecedoras que o cuteleiro da sua esquina. Também cantam e dançam com sinos amarrados nos pés, ao redor do gado desnorteado, tentando mantê-lo em círculo.

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As tribos do Vale do Omo (parte 1)

Leitura: 7 minutos.

O triângulo formado pelas fronteiras entre Etiópia, o recém-formado Sudão do Sul e Quênia é um dos lugares étnica e culturalmente mais diversos do mundo. Tribos como os Bodi (Me’en), Daasanach, Karo, Kwegu (ou Muguji), Mursi, Nyangatom, Hamar, Chai e Turkana dividem os já escassos recursos do baixo Omo para agricultura, pesca e pecuária de subsistência. Apesar da pobreza extrema, as diferenças culturais atraem gente do mundo inteiro interessada no que há de mais exótico. Sim, há turistas.

Rotas no Vale do Omo

Rotas no Vale do Omo

Antes de ir à Etiópia, entrei em um fórum e arrematei mais dois viajantes para ir comigo, um australiano e uma canadense. Cheguei em Addis Ababa, a capital, deixei minhas coisas no hotel e fui rodar a cidade. No caminho, parei um sujeito loiro de olhos azuis que parecia um pouco perdido. Sabia que falava inglês. Perguntei se sabia onde comprar um cartão para o celular, precisava ligar para outros viajantes. Respondeu que também estava procurando. No caminho, nos apresentamos. “Peraí, seu nome é Gustavo? Eu sou o John, o australiano do fórum”.

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O que há além da primeira mordida de chocolate na Costa do Marfim

A Costa do Marfim, apesar de pequena, é a maior produtora de cacau do mundo, mas nem por isso os fazendeiros de M’Bato, uma pequena aldeia dentro do país, conheciam essa maravilha. O correspondente da holandesa Metropolis TV, Selay Marius Kouassi, faz então a introdução e as reações são emocionantes.

O vídeo repercutiu bastante na internet nos últimos dias e é realmente incrível. Mas há um pano de fundo não muito animador na história toda.

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A lenda do camelo

Conheci Dagoberto na região de Afar, no deserto de Danakil (Etiópia), onde ele trabalhava carregando blocos de sal retirados do solo.

“Meus filhos, agora vou lhes contar a lenda do camelo. Há muitos anos atrás, o camelo também era um animal forte e esbelto como também hoje são os leões e os elefantes. Deus, então, deu ao camelo chifres como recompensa pelo seu bom coração.

Mas, um dia, quando o camelo descansava placidamente junto à água, um cervo pediu ao camelo para lhe emprestar seus chifres. Queria enfeitar-se para uma celebração no ocidente. O camelo não viu motivo para não confiar nele e emprestou-lhe os seus chifres. Mas o cervo nunca voltou e os devolveu.

Desde então, os camelos continuam a olhar para o horizonte à espera do seu regresso. Assim é, meus pequenos. Assim, tão grande, é o coração de um camelo”.

(lenda mongol, texto do filme Camelos Também Choram*)

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A esquizofrenia do kuduro

O kuduro surgiu nas paisagens urbanas e caóticas de Luanda, Angola, no final dos anos 80. Como o funk carioca, uniu o vocabulário, o humor e as histórias cotidianas vividas nas comunidades excluídas do cenário político e econômico a batidas eletrônicas cruas e ensurdecedoras. O corpo duro e desmembrado, retorcendo-se rapidamente sobre as lajes de um velho barraco caiu nas graças de todas as classes sociais e venceu as barreiras de território também.

A contribuição da rapper do Sri Lanka, baseada no Reino Unido, M.I.A., junto ao Buraka Som Sistema, Saborosa, Puto Prata e DJ Znobia, resume bem o sentimento e a força que o ritmo tem sobre os corpos. Angolanos ou não.

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Berbera

Berbera. Nome exótico esse. Ber-be-ra. Lembra especiarias, tecidos, mirra. Homens vão e voltam das suas embarcações, desembarcam grandes caixas acompanhadas de ratos. Alguns se dedicam a pesar os produtos à beira do porto. Berram, negociam, brigam, às vezes lutam entre si e sangram e são calados sempre pelo barulho do mar ao anoitecer.

Berbera, em 1896A foto data de 1896, está no arquivo do Field Museum, em Chicago. Nome da expedição: Africa Expedition; participantes: D.G. Elliot and Carl Akeley; motivo da viagem: zoologia mamífera. Material original: lâmina colorida a mão.

Uma foto hoje não sai diferente.

Berbera. Parece que enquanto o resto do mundo se transformava em hoje, aqui o tempo decidiu ficar pra trás, pirraçou, e o vilarejo dormiu. Que nada! Berbera foi um porto movimentado desde a antiguidade, ali de frente pra Arábia, basta atravessar alguns quilômetros de mar, o golfo de Aden.

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A linha invisível entre Etiópia e Djibouti

Leitura: 7 minutos. Senta que lá vem a história.

Ao chegar em Dire Dawa, leste da Etiópia, ouvi a notícia de que o trem que leva ao Djibouti tinha sido reativado. Não funcionava todos os dias da semana, mas era uma opção boa para quem não quer enfrentar os solavancos de um ônibus atravessando o deserto.

Uma jornada que podia levar de 12 a 20 horas dependendo das paradas e procedimentos na fronteira. “Se o trem não tiver nenhum problema, você pode chegar lá às 18h”, me avisava o vendedor do bilhete, radiante. “Sai às 3 horas da manhã”, completou.

A cidade estava sem luz. O hotel não tinha mais água. Tomei um banho de cuia às escuras. Uma ratazana atravessava a luz amarela projetada pelas velas no chão do hotel. Chovia um pouco lá fora. Resolvi não sair para comer e dormi cedo. Às 2h30, levantei-me depressa, deixei as chaves na bancada e fui para a estação.

Não havia ninguém. Continuar lendo

Vida e morte Teodora

O Tewodros que conheci não parecia em nada com o famoso imperador Tewodros II, a referência de seus pais quando escolheram o nome. O pai da Etiópia moderna é reconhecido ainda como o sujeito que conseguiu unificar os povos da região e formar uma nação entre os anos de 1855 e 1868. Dizia-se arrogantemente “descendente de David e Salomão”, “eleito por Deus” e coisa e tal. Pensava ser o último biscoito.

O meu contemporâneo tinha apenas 21 anos. Magro, alto, usando uma camiseta de futebol já meio batida, Teddy – como ele mesmo se apelidava – carregava na mão um caderninho amassado e tinha uma pequena mochila nas costas. Estava sorridente. Um sorriso nervoso, apreensivo. Como uma criança órfã, posava entre outros guias certamente mais experientes, para ser escolhido pelo nosso grupo, que se formou espontaneamente num hotel – dois ingleses, uma guatemalteca, um coreano, um alemão e eu.

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