Os donos da palavra

Dá um orgulho esse negócio de não ter mais páginas no passaporte.

Foi na capital do Timor Leste, Díli, que descobri: teria que trocá-lo ou já não haveria como entrar em outros países. Para minha sorte, o Brasil ainda mantém relações muito próximas com o país, que tem o português como uma das línguas oficiais. A embaixada era logo ali do lado da casa de um amigo, onde fiquei hospedado.

Num dia quente – todos os dias são dias quentes em Díli – saí e fui lá resolver o pepino tão bem-vindo. “Um passaporte cheio”, apreciava, girando as páginas na mão, como uma criança ao completar um álbum de figurinhas. Conversava com o responsável pelas atividades culturais da embaixada, o Gilberto Gasparetto, também músico, compositor, ator e detentor de muitas histórias. Sua mulher, também brasileira, dá aulas de português. Falávamos sobre a apresentação de um documentário há alguns dias atrás sobre o Manoel de Bandeira, trabalho feito pelo jornalista Claudio Savaget. O Claudio apareceu logo depois. Simpático, falava empolgado de sua nova empreitada: ir ao interior de Maubisse e documentar os lian nais (donos da palavra). Em um movimento de íntimos amigos do passado, esticou o braço ao meu ombro: “não quer ir não, Gustavo? Você vai amar!”.

Claro! Eu ia amar.

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Wanted

Acabei de entrar correndo em um restaurante chique. Pedi um iogurte grego com frutas. A primeira coisa que veio aos olhos. Zero vontade. Ainda não sei o que fazer.

Hoje despertei tarde, depois de tantas noites mal ou não dormidas em que passei andejando por caldeiras e vulcões de Java (merecerão um texto à parte). Tomei café da manhã, que teve gosto de almoço porque veio com arroz, e saí com a moto alugada nesses dias para vaguear por uns campos de arroz aqui perto. Gosto de terraços de arroz, falei?

Há uma rua principal no centro de Ubud, em Bali, que é uma cilada para turistas. Alguns trechos se tornam, de hora pra outra, via de mão única. Vi os sinais mas os outros motoristas continuavam a cada um desses trechos ignorando o aviso, coisa que não é de impressionar quando se trata de Indonesistão. Resolvi seguir e a Sorte, entidade essa que distribui desgraças e bilhetes premiados dia sim e dia sim, me regalou um policial em busca de muitas coisas, como todo ser humano, e também uma pequena fatia do meu orçamento. Enquanto passava o sermão, o filme rodava na caixinha, “ele vai pedir propina”.

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Joguinho português-malaio-indonésio

Os portugueses foram de uma ambição obscena lá pelos 1500 e 1600, a gente já sabe e já falei sobre isso num longo texto chato aqui. Mas agora, por esses lados (estou na ilha de Java), está caindo a ficha de que o império e as influências foram ainda maiores do que eu esperava. Vê só, as línguas da Malásia e da Indonésia são muito similares. E daí que nos dois países eu tenho encontrado palavras pra lá de familiares. Vai aqui uma listinha, tenta descobrir o que significa. Um ponto pra cada acerto, valeeeendoooooooo!

almari

baldi

bangku

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A moral dos trens

O sistema de trens na Índia é super complexo. De qualquer maneira, funciona bem, considerando um país de mais de 1 bilhão de pessoas. Aprofundei-me na arte de entender esse sistema. Fui apresentado às Indian Railways há 6 anos atrás, na minha primeira visita à Índia. Dessa vez, foi só relembrar, refazer cadastros e instalar aplicativos. O fluxo de aprovação é burocrático e tenho ajudado quem tem dúvidas nos albergues em que fico. Mesmo um expert no assunto pode falhar. E quando falha, vale muita criatividade considerando os limites de cada um – os meus são bem elásticos.

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Veja bem, a Índia não é um país fácil e é o que faz de lá um “ame ou odeie”. Quem atinge a superfície, vê primeiramente o lixo que se espalha nas ruas, os riachos de esgoto e extrema miséria. Com um pouco de paciência e bom humor, descortina-se uma malha muito mais complexa que a ferroviária. A das regras não ditas. A mais conhecida e incompreendida delas: o sistema de castas. Explicar isso a um estrangeiro é difícil mas os próprios indianos têm dificuldade de entender toda a complexidade na imensidão de castas, sem começar a falar de religiões e línguas em que vivem. A Índia é uma colcha de retalhos, é muitas nações em uma só e acabou sendo desenhada e redesenhada durante a história, desde as invasões arianas até os ingleses e as posteriores separações do Paquistão Leste (hoje, Bangladesh) e oeste (o Paquistão Paquistão).

Existe um trecho de “O Tigre Branco” do escritor Aravind Adiga, que ajuda a explicar, com boas doses de ironia, um pouco dessa dinâmica que foi mudando no último século.

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Ele existe!

Vim até Bornéu, aquela ilha que tem no tabuleiro do War, só pra vê-lo. E tive sorte. Não que seja muito complicado encontrar aqui o macaco proboscídeo – mais conhecido como macaco narigudo na minha roda de amigos. Mas o bichinho é tímido, o que torna complicada qualquer tentativa de aproximação no meio da selva.

Foi em uma das primeiras incursões à floresta que encontrei essa figura, no Parque Nacional de Bako, na parte malaia da ilha de Bornéu. Para os cientistas, nasalis larvatus. Para os malaios, bekantan ou o simpático codinome monyet belanda (macaco holandês). Como a Malásia foi ocupada por portugueses, holandeses, britânicos e japoneses, o povo daqui resolveu que o macaco narigudo com suas feições rosadas e barrigas protuberantes pareciam mais com os holandeses. Piadas racistas da época.

Macaco probscídeo dando um rolê

Macaco probscídeo (fêmea) dando um rolê

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Elogio ao ócio e à pescaria

No Sri Lanka, estou entregue à auto-indulgência. Perdão pelos dias sem fazer nada, pelo estouro no orçamento, pela preguiça, pela gula, pelo livro não lido, pelo post perdido, pela cidade não visitada. Perdão aos homens de preto por não ter feito a minha parte e, mesmo que não o receba, não me importo. A clemência, aqui e agora, vem automática, porque tem praia e água de coco por perto. Eu me perdoo.

É nessa que me dei ao direito de experimentar a inércia extrema. Ir até a praia e voltar para comer, dormir, balançar pro céu em uma rede.

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Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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Natal em Goa

“Se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa” ~ sabedoria popular

Na Europa, a região que ficou conhecida como a que provia especiarias por meio de Portugal, para depois cair na graça dos hippies e, depois, pelos clubbers com suas raves intermináveis, Goa hoje tem apenas uma cena decadente de cada um desses períodos. Destino predileto dos russos e britânicos exilados do frio e jovens israelenses, que viajam em bando logo após terminarem seus serviços militares, Anjuna e algumas outras praias ao norte do estado ainda concentram as festas. Ali, os senhores enrugados ostentando tranças, imensas tatuagens, manchas cancerígenas, tanguinhas e tantos outros artigos ridículos quanto couberem na imaginação, se misturam a grupos de indianos que estão bebendo pela primeira vez e que se jogam desorientados nas ondas sem saber muito como funcionam aquelas águas escuras. Debutam nos caixotes e na forte correnteza anunciada em bandeiras vermelhas, muitas vezes completamente vestidos. Não deixa de ser divertido ficar observando famílias inteiras sendo jogadas de volta à costa, tossindo água, comendo areia. As mulheres vão com seus saris. Os homens, com roupas que vão de simples cuecas velhas a trajes completos: camisas sociais e calças jeans. Riem e aproveitam aquilo como o paraíso. E é.

O paraíso é isso. Beber e entrar em uma máquina de lavar.

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Por que ir ao Afeganistão. E por que não.

Sempre tive muita curiosidade e me coço inteiro só de pensar na possibilidade de ir ao Afeganistão, um dos países mais bonitos naturalmente e recheado de história, a começar pelo fato de estar no centro da Rota da Seda. Ali cruzaram centenas de civilizações e essa é até hoje a maior riqueza da região e, talvez, também um dos fatores que levaram à agonia que os afegãos vivem hoje. Então, para começar: por que não ir? A situação é realmente ruim e não vale a pena se arriscar. Essa, no entanto, é a única razão que consigo encontrar: guerra e, consequentemente, extrema pobreza. É uma razão forte. Mas quando a situação melhorar, não pensarei duas vezes. Agora…

Por que ir ao Afeganistão?

O texto abaixo é uma tradução livre de uma resposta do usuário Hadayat Seddiqi, na rede-social-cabeça Quora. Ele é perguntado sobre O que todo mundo deveria saber mas ninguém sabe sobre o seu país?. Aí vai a resposta e leve em consideração que: 1) as opiniões são dele; 2) trata-se de uma pessoa nascida no Afeganistão que se mudou para os EUA com menos de 1 ano mas ainda mantem relações com o país, pois possui familiares lá.

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Odeio a Tailândia

Tem sido um ano ruim para o turismo na Tailândia. O vídeo entitulado “I Hate Thailand” (Eu odeio a Tailândia) parecia, à primeira vista, um novo ataque a uma das maiores fontes de renda do país – cerca de 7% do PIB.

No vídeo, um turista aparentemente britânico aparece reclamando que tudo o que sobrou dele foi alguns centavos e que sua mochila foi roubada. Acontece que, ao que tudo indica, a “reclamação” faz parte de uma formidável peça publicitária encomendada pelo próprio governo. Continuar lendo