Das cores que a gente perdeu

Visitando a Grécia e Turquia, onde se concentram as maiores obras ainda observáveis de tradição helênica, é possível ver ainda – quando alguém chama atenção para o detalhe, claro – um resquício de pintura em uma ou outra peça. Pois é, ao chegar muito perto daquelas tradicionais esculturas de mármore branco, chega-se à estranha conclusão que os artistas da época não o queriam propriamente branco. Aparentemente, muitas das as esculturas gregas e romanas eram sim pintadas e com cores fortes.

Com o uso de raios ultravioleta e luz negra, arqueólogos conseguiram encontrar as cores originais. Segundo um artigo de Christopher Reed, na Harvard Magazine,  esse processo “pode dar ideias de padrões de pintura mesmo que os pigmentos não tenham sobrevivido”. A pintura dessas reproduções parece ser extremamente fina, fraca, com poucas pinceladas de óleo. “Pode-se identificar os colorantes – a maioria feita de minerais e plantas”, completa outro pesquisador, Ebbinghaus. “Se os minerais tivessem sido moídos com mais cuidado, com diferentes concentrações, a pintura tivesse sido polida ou coberta por alguma solução protetora, o trabalho teria um efeito bem diferente e duradouro”.

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A loucura em forma de bunker

Durante os 40 anos de comunismo liderado por Enver Hoxha, a Albânia se especializou em ter medo de absolutamente tudo. Primeiro, a temida figura do Marechal Tito, chefão da Iugoslávia. Fazia algum sentido, visto que a Albânia figurava sozinha no mapa, encurralada pela Iugoslávia e Grécia. O próprio Tito sugeriu diversas vezes que o país faria mais sentido se fosse anexado por eles (#vemgente). O segundo motivo de preocupação, era a invasão de grupos fascistas no norte da Grécia. Vale lembrar também que a Itália de Mussolini ocupou o país também, fazendo-o um protetorado entre 1939 e 1943.

É, a Albânia tinha inimigos.

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Elogio ao ócio e à pescaria

No Sri Lanka, estou entregue à auto-indulgência. Perdão pelos dias sem fazer nada, pelo estouro no orçamento, pela preguiça, pela gula, pelo livro não lido, pelo post perdido, pela cidade não visitada. Perdão aos homens de preto por não ter feito a minha parte e, mesmo que não o receba, não me importo. A clemência, aqui e agora, vem automática, porque tem praia e água de coco por perto. Eu me perdoo.

É nessa que me dei ao direito de experimentar a inércia extrema. Ir até a praia e voltar para comer, dormir, balançar pro céu em uma rede.

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Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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Natal em Goa

“Se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa” ~ sabedoria popular

Na Europa, a região que ficou conhecida como a que provia especiarias por meio de Portugal, para depois cair na graça dos hippies e, depois, pelos clubbers com suas raves intermináveis, Goa hoje tem apenas uma cena decadente de cada um desses períodos. Destino predileto dos russos e britânicos exilados do frio e jovens israelenses, que viajam em bando logo após terminarem seus serviços militares, Anjuna e algumas outras praias ao norte do estado ainda concentram as festas. Ali, os senhores enrugados ostentando tranças, imensas tatuagens, manchas cancerígenas, tanguinhas e tantos outros artigos ridículos quanto couberem na imaginação, se misturam a grupos de indianos que estão bebendo pela primeira vez e que se jogam desorientados nas ondas sem saber muito como funcionam aquelas águas escuras. Debutam nos caixotes e na forte correnteza anunciada em bandeiras vermelhas, muitas vezes completamente vestidos. Não deixa de ser divertido ficar observando famílias inteiras sendo jogadas de volta à costa, tossindo água, comendo areia. As mulheres vão com seus saris. Os homens, com roupas que vão de simples cuecas velhas a trajes completos: camisas sociais e calças jeans. Riem e aproveitam aquilo como o paraíso. E é.

O paraíso é isso. Beber e entrar em uma máquina de lavar.

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Por que ir ao Afeganistão. E por que não.

Sempre tive muita curiosidade e me coço inteiro só de pensar na possibilidade de ir ao Afeganistão, um dos países mais bonitos naturalmente e recheado de história, a começar pelo fato de estar no centro da Rota da Seda. Ali cruzaram centenas de civilizações e essa é até hoje a maior riqueza da região e, talvez, também um dos fatores que levaram à agonia que os afegãos vivem hoje. Então, para começar: por que não ir? A situação é realmente ruim e não vale a pena se arriscar. Essa, no entanto, é a única razão que consigo encontrar: guerra e, consequentemente, extrema pobreza. É uma razão forte. Mas quando a situação melhorar, não pensarei duas vezes. Agora…

Por que ir ao Afeganistão?

O texto abaixo é uma tradução livre de uma resposta do usuário Hadayat Seddiqi, na rede-social-cabeça Quora. Ele é perguntado sobre O que todo mundo deveria saber mas ninguém sabe sobre o seu país?. Aí vai a resposta e leve em consideração que: 1) as opiniões são dele; 2) trata-se de uma pessoa nascida no Afeganistão que se mudou para os EUA com menos de 1 ano mas ainda mantem relações com o país, pois possui familiares lá.

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A dança do silêncio

Música é um meio formado por silêncios e sons. E, que tal fazer música com silêncios e silêncios? Os sons, daí, passam a ser imaginários. Essa foi a ideia das diretoras Sofia Mattioli e Cherise Payne para o clipe “Sleep Sound” de Jamie XX.

Mattioli diz que estava no trem ouvindo música, quando uma garota entregou uma nota dizendo que era surda mas que praticamente conseguia sentir a música, apenas olhando para ela.

O vídeo é uma colaboração com o Manchester Deaf Centre e mostra até onde nossa imaginação pode chegar – os participantes são surdos e não há qualquer música no ambiente.

Em tempo, Jamie XX é percussionista e produtor justamente do The XX… e a música é ótima.

Conheça também 6 histórias de dançarinos com deficiências auditivas aqui (vídeo em inglês).

Odeio a Tailândia

Tem sido um ano ruim para o turismo na Tailândia. O vídeo entitulado “I Hate Thailand” (Eu odeio a Tailândia) parecia, à primeira vista, um novo ataque a uma das maiores fontes de renda do país – cerca de 7% do PIB.

No vídeo, um turista aparentemente britânico aparece reclamando que tudo o que sobrou dele foi alguns centavos e que sua mochila foi roubada. Acontece que, ao que tudo indica, a “reclamação” faz parte de uma formidável peça publicitária encomendada pelo próprio governo. Continuar lendo

Arte erótica em Khajuraho

Em um dia quente de 1830, uma expedição do engenheiro inglês T. S. Burt chegava a um pequeno vilarejo em Madhya Pradesh, um dos estados centrais da Índia – que, na época, ainda contava com as terras do atual Paquistão e Bangladesh. O pequeno grupo, além de provimentos básicos para os próximos dias, carregava alguns livros antigos de historiadores e de viajantes da região. Hospedaram-se na cidade de Chhatarpur com intenções de conhecer o vilarejo de Khajuraho. Ali, no meio daquele matagal, longe de qualquer centro urbano, devia haver um grupo de curiosos templos. Era o que diziam os relatos do marroquino Ibn Battuta, de 1335, por exemplo.

… perto dos templos, que contêm ídolos mutilados pelos muçulmanos, vive um grupo de iogues que deixam seus cabelos crescerem ao tamanho de seus corpos. E devido a esse ascetismo extremo, todos têm uma cor amarelada. Muitos muçulmanos visitam esses homens em busca de ensinamentos de ioga.

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