Das cores que a gente perdeu

Visitando a Grécia e Turquia, onde se concentram as maiores obras ainda observáveis de tradição helênica, é possível ver ainda – quando alguém chama atenção para o detalhe, claro – um resquício de pintura em uma ou outra peça. Pois é, ao chegar muito perto daquelas tradicionais esculturas de mármore branco, chega-se à estranha conclusão que os artistas da época não o queriam propriamente branco. Aparentemente, muitas das as esculturas gregas e romanas eram sim pintadas e com cores fortes.

Com o uso de raios ultravioleta e luz negra, arqueólogos conseguiram encontrar as cores originais. Segundo um artigo de Christopher Reed, na Harvard Magazine,  esse processo “pode dar ideias de padrões de pintura mesmo que os pigmentos não tenham sobrevivido”. A pintura dessas reproduções parece ser extremamente fina, fraca, com poucas pinceladas de óleo. “Pode-se identificar os colorantes – a maioria feita de minerais e plantas”, completa outro pesquisador, Ebbinghaus. “Se os minerais tivessem sido moídos com mais cuidado, com diferentes concentrações, a pintura tivesse sido polida ou coberta por alguma solução protetora, o trabalho teria um efeito bem diferente e duradouro”.

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A dança do silêncio

Música é um meio formado por silêncios e sons. E, que tal fazer música com silêncios e silêncios? Os sons, daí, passam a ser imaginários. Essa foi a ideia das diretoras Sofia Mattioli e Cherise Payne para o clipe “Sleep Sound” de Jamie XX.

Mattioli diz que estava no trem ouvindo música, quando uma garota entregou uma nota dizendo que era surda mas que praticamente conseguia sentir a música, apenas olhando para ela.

O vídeo é uma colaboração com o Manchester Deaf Centre e mostra até onde nossa imaginação pode chegar – os participantes são surdos e não há qualquer música no ambiente.

Em tempo, Jamie XX é percussionista e produtor justamente do The XX… e a música é ótima.

Conheça também 6 histórias de dançarinos com deficiências auditivas aqui (vídeo em inglês).

Arte erótica em Khajuraho

Em um dia quente de 1830, uma expedição do engenheiro inglês T. S. Burt chegava a um pequeno vilarejo em Madhya Pradesh, um dos estados centrais da Índia – que, na época, ainda contava com as terras do atual Paquistão e Bangladesh. O pequeno grupo, além de provimentos básicos para os próximos dias, carregava alguns livros antigos de historiadores e de viajantes da região. Hospedaram-se na cidade de Chhatarpur com intenções de conhecer o vilarejo de Khajuraho. Ali, no meio daquele matagal, longe de qualquer centro urbano, devia haver um grupo de curiosos templos. Era o que diziam os relatos do marroquino Ibn Battuta, de 1335, por exemplo.

… perto dos templos, que contêm ídolos mutilados pelos muçulmanos, vive um grupo de iogues que deixam seus cabelos crescerem ao tamanho de seus corpos. E devido a esse ascetismo extremo, todos têm uma cor amarelada. Muitos muçulmanos visitam esses homens em busca de ensinamentos de ioga.

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Ierevan, cidade das artes

A capital da Armênia é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo cerca de 2780 anos de história. Com suas influências persas, otomanas, soviéticas e europeias – as duas últimas mais gritantes – é ainda subestimada por muita gente. Antes de ir, ouvi muitos viajantes dizendo: “ah, é só mais uma cidade, fiquei lá um dia apenas e voltei”. Talvez por isso não tenham aproveitado.

Com aparência persa, leia-se narizes alongados, sobrancelhas bem delineadas, olhos amendoados, pele clara, parece não haver armênio que não se sinta bem em uma das centenas opções de cafés, sebos e galerias de arte. Sentados em grupos, olham o movimento da cidade, saboreando mais um café, mais um cigarro – e como fumam! – e o tempo passa leve na capital, sem ferir as almas. A música ambiente é um lounge, a versão chata da sua música preferida, que às vezes dá espaço a algum rock alternativo mais palatável.

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Música búlgara em Orhid

Cheguei em Orhid, pequeno balneário à beira de um lago, no sul da Macedônia e cidade fronteiriça com a Albânia. Muita gente sabe que eu sou louco por música dos Balcãs. Como eu sou um sortudo da porra, cheguei desavisado no primeiro dia do Ohrid Balkan Festival 2014.

Bandas macedônias, sérvias, búlgaras, croatas e o colaborações da Austrália, Polônia e Israel também vieram e estão se apresentando nas ruas e em um antigo anfiteatro grego. Em Sófia, procurei por coros búlgaros para assistir e nada. Chegando aqui em Orhid, foi justamente uma banda búlgara a primeira a dar as graças no palco, pondo fim à minha breve frustração.

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A lenda do camelo

Conheci Dagoberto na região de Afar, no deserto de Danakil (Etiópia), onde ele trabalhava carregando blocos de sal retirados do solo.

“Meus filhos, agora vou lhes contar a lenda do camelo. Há muitos anos atrás, o camelo também era um animal forte e esbelto como também hoje são os leões e os elefantes. Deus, então, deu ao camelo chifres como recompensa pelo seu bom coração.

Mas, um dia, quando o camelo descansava placidamente junto à água, um cervo pediu ao camelo para lhe emprestar seus chifres. Queria enfeitar-se para uma celebração no ocidente. O camelo não viu motivo para não confiar nele e emprestou-lhe os seus chifres. Mas o cervo nunca voltou e os devolveu.

Desde então, os camelos continuam a olhar para o horizonte à espera do seu regresso. Assim é, meus pequenos. Assim, tão grande, é o coração de um camelo”.

(lenda mongol, texto do filme Camelos Também Choram*)

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A esquizofrenia do kuduro

O kuduro surgiu nas paisagens urbanas e caóticas de Luanda, Angola, no final dos anos 80. Como o funk carioca, uniu o vocabulário, o humor e as histórias cotidianas vividas nas comunidades excluídas do cenário político e econômico a batidas eletrônicas cruas e ensurdecedoras. O corpo duro e desmembrado, retorcendo-se rapidamente sobre as lajes de um velho barraco caiu nas graças de todas as classes sociais e venceu as barreiras de território também.

A contribuição da rapper do Sri Lanka, baseada no Reino Unido, M.I.A., junto ao Buraka Som Sistema, Saborosa, Puto Prata e DJ Znobia, resume bem o sentimento e a força que o ritmo tem sobre os corpos. Angolanos ou não.

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Sexo, drogas e o curioso rock’n’roll do Cambodja

Se eu falar em música do Cambodja, o que vem primeiro à cabeça? Música tradicional, mulheres excessivamente maquiadas, dançando com roupas douradas, unhas gigantes, chapéus em forma de cone… Não não não.

Não muita gente sabe, mas no final dos anos 60 e início dos 70, o Cambodja teve uma cena underground de rock. Rock de garagem. O Cambodian Rocks é uma seleção histórica que documenta a música nessa época. A coleção é recheada de psicodelia, rebeldia juvenil, deliciosas guitarras distorcidas e vozes exóticas, com ares de Jimi Hendrix e Janis Joplin. Continuar lendo

Radiohead versão Oriente Médio

A incrível colaboração dos músicos israelenses Rotem Shefy (vocalista) e Leat Sabbah (violoncelo e arranjo) deu nessa incrível versão de Karma Police, um dos clássicos do Radiohead. A iniciativa só saiu depois de uma campanha de crowdfunding bem sucedida no Kickstarter, que arrecadou cerca de 2 mil dólares, com a ajuda de 63 pessoas – a música estava pronta, faltava o clipe. Dá um confere.
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