A psicologia dos vulcões

Vulcões são insensíveis às veleidades humanas, ridículas. Quem liga se uma cidade inteira vai queimar e ser acobertada por uma saraiva de cinzas? E os moradores que vão perder suas casas ou vidas ou filhos, amantes, penteadeiras, as noites bem dormidas? E os cãezinhos? Vulcões têm outra ética, outra substância, ignoram o que há ao redor. No mundo, digo, nesse mundo, não há inocência. E quem disse que ser enterrado em magma, saliva da Terra, pó derretido, quem disse que isso faz mal aos cãezinhos? E nós dormimos, dormimos por anos. Um trabalho que não é fácil, quando seguramos o firmamento por um lado – não é só o Atlas – e a torrente de lava por outro até que fique insuportável, até não cabermos em nós mesmos e transbordamos docilmente em orgasmos. E há quem pense em nós? Somos muito úteis, poucos reconhecem.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cada um de uma cor.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cores bizarras.

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Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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As tribos do Vale do Omo (parte 2)

Leitura: 10 minutos. O post é continuação da parte 1.

A aldeia começou a se mover toda para uma outra parte do vale. Fomos acompanhando. No caminho, as mulheres conversavam e mesmo todo o sangue e as cicatrizes não abafavam o clima leve de festa entre o grupo. Depois de cerca de 15 minutos chegamos a outro local, um platô arenoso cercado de árvores. Um grupo de homens trazia os touros para o centro do espaço. Nesse tempo, as mulheres continuaram a se aproximar dos mais jovens em provocação. E, em retorno, mais chicotadas e feridas abertas. Alguns turistas demonstravam querer desistir e uma senhora parecia se sentir mal. Sentou-se aos pés de uma árvore para se recuperar. Nesse momento, alguma alma bondosa parou para me explicar – até então não tinha lido muito a respeito e fui pego de surpresa.

A cerimônia do salto aos touros é um ritual de iniciação dos homens Hamar. A partir deste dia, podem se casar, por exemplo. Apenas um deles era o alvo da comemoração, que é, grosso modo, o que é o bar-mitzvah para os judeus. O adolescente tinha cabelo longo e cortado estranhamente só na parte da frente – a parte de trás do cabelo, levantada, excêntrica como um pavão. Chegou completamente nu, ao contrário dos outros. As mulheres da família (irmãs, mãe, primas, amigas e até avós) que desejarem mostrar seu amor pelo “debutante”, devem então fazer o tal jogo, oferecendo-se para receberem chicotadas. Quanto maior a implicância e a coragem dessas mulheres, maior é a demonstração de amor pelo parente que será, agora, considerado um adulto. Para isso, elas usam uma corneta feita de chifre de touro, mais estridentes que uma vuvuzela, mais enlouquecedoras que o cuteleiro da sua esquina. Também cantam e dançam com sinos amarrados nos pés, ao redor do gado desnorteado, tentando mantê-lo em círculo.

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As tribos do Vale do Omo (parte 1)

Leitura: 7 minutos.

O triângulo formado pelas fronteiras entre Etiópia, o recém-formado Sudão do Sul e Quênia é um dos lugares étnica e culturalmente mais diversos do mundo. Tribos como os Bodi (Me’en), Daasanach, Karo, Kwegu (ou Muguji), Mursi, Nyangatom, Hamar, Chai e Turkana dividem os já escassos recursos do baixo Omo para agricultura, pesca e pecuária de subsistência. Apesar da pobreza extrema, as diferenças culturais atraem gente do mundo inteiro interessada no que há de mais exótico. Sim, há turistas.

Rotas no Vale do Omo

Rotas no Vale do Omo

Antes de ir à Etiópia, entrei em um fórum e arrematei mais dois viajantes para ir comigo, um australiano e uma canadense. Cheguei em Addis Ababa, a capital, deixei minhas coisas no hotel e fui rodar a cidade. No caminho, parei um sujeito loiro de olhos azuis que parecia um pouco perdido. Sabia que falava inglês. Perguntei se sabia onde comprar um cartão para o celular, precisava ligar para outros viajantes. Respondeu que também estava procurando. No caminho, nos apresentamos. “Peraí, seu nome é Gustavo? Eu sou o John, o australiano do fórum”.

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A lenda do camelo

Conheci Dagoberto na região de Afar, no deserto de Danakil (Etiópia), onde ele trabalhava carregando blocos de sal retirados do solo.

“Meus filhos, agora vou lhes contar a lenda do camelo. Há muitos anos atrás, o camelo também era um animal forte e esbelto como também hoje são os leões e os elefantes. Deus, então, deu ao camelo chifres como recompensa pelo seu bom coração.

Mas, um dia, quando o camelo descansava placidamente junto à água, um cervo pediu ao camelo para lhe emprestar seus chifres. Queria enfeitar-se para uma celebração no ocidente. O camelo não viu motivo para não confiar nele e emprestou-lhe os seus chifres. Mas o cervo nunca voltou e os devolveu.

Desde então, os camelos continuam a olhar para o horizonte à espera do seu regresso. Assim é, meus pequenos. Assim, tão grande, é o coração de um camelo”.

(lenda mongol, texto do filme Camelos Também Choram*)

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A linha invisível entre Etiópia e Djibouti

Leitura: 7 minutos. Senta que lá vem a história.

Ao chegar em Dire Dawa, leste da Etiópia, ouvi a notícia de que o trem que leva ao Djibouti tinha sido reativado. Não funcionava todos os dias da semana, mas era uma opção boa para quem não quer enfrentar os solavancos de um ônibus atravessando o deserto.

Uma jornada que podia levar de 12 a 20 horas dependendo das paradas e procedimentos na fronteira. “Se o trem não tiver nenhum problema, você pode chegar lá às 18h”, me avisava o vendedor do bilhete, radiante. “Sai às 3 horas da manhã”, completou.

A cidade estava sem luz. O hotel não tinha mais água. Tomei um banho de cuia às escuras. Uma ratazana atravessava a luz amarela projetada pelas velas no chão do hotel. Chovia um pouco lá fora. Resolvi não sair para comer e dormi cedo. Às 2h30, levantei-me depressa, deixei as chaves na bancada e fui para a estação.

Não havia ninguém. Continuar lendo

Vida e morte Teodora

O Tewodros que conheci não parecia em nada com o famoso imperador Tewodros II, a referência de seus pais quando escolheram o nome. O pai da Etiópia moderna é reconhecido ainda como o sujeito que conseguiu unificar os povos da região e formar uma nação entre os anos de 1855 e 1868. Dizia-se arrogantemente “descendente de David e Salomão”, “eleito por Deus” e coisa e tal. Pensava ser o último biscoito.

O meu contemporâneo tinha apenas 21 anos. Magro, alto, usando uma camiseta de futebol já meio batida, Teddy – como ele mesmo se apelidava – carregava na mão um caderninho amassado e tinha uma pequena mochila nas costas. Estava sorridente. Um sorriso nervoso, apreensivo. Como uma criança órfã, posava entre outros guias certamente mais experientes, para ser escolhido pelo nosso grupo, que se formou espontaneamente num hotel – dois ingleses, uma guatemalteca, um coreano, um alemão e eu.

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A mensagem de Teodoro

Recebi, há dois dias atrás, uma mensagem de agradecimento que me deixou bem feliz. Ela vem de Tewodros Misganaw, ou Teddy, um guia turístico de 21 anos, no noroeste da Etiópia, nas montanhas Simien. Mantive os erros de gramática e pontuação, do jeito que chegou. A explicação sobre a mensagem, só pra deixar o suspense, vem em outro post, outro dia, no mesmo horário, no mesmo canal.

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O tempo na Etiópia

– Então, tá marcado. Vamos jantar amanhã. Que horas te encontro?
– Às duas horas.
– Duas, perae. Duas? Ah, almoço então!
– Não, não. Jantar, foi mal, duas horas pra mim, oito horas pra você.

A vida na Etiópia não é fácil. A começar pelos horários loucos que certamente farão você ser a pessoa mais lerda na fila da rodoviária, questionando aos berros por que diabos seu ônibus sai de madrugada se você pediu o busão da manhã.

Para de chilique, meu amigo!

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