A moral dos trens

O sistema de trens na Índia é super complexo. De qualquer maneira, funciona bem, considerando um país de mais de 1 bilhão de pessoas. Aprofundei-me na arte de entender esse sistema. Fui apresentado às Indian Railways há 6 anos atrás, na minha primeira visita à Índia. Dessa vez, foi só relembrar, refazer cadastros e instalar aplicativos. O fluxo de aprovação é burocrático e tenho ajudado quem tem dúvidas nos albergues em que fico. Mesmo um expert no assunto pode falhar. E quando falha, vale muita criatividade considerando os limites de cada um – os meus são bem elásticos.

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Veja bem, a Índia não é um país fácil e é o que faz de lá um “ame ou odeie”. Quem atinge a superfície, vê primeiramente o lixo que se espalha nas ruas, os riachos de esgoto e extrema miséria. Com um pouco de paciência e bom humor, descortina-se uma malha muito mais complexa que a ferroviária. A das regras não ditas. A mais conhecida e incompreendida delas: o sistema de castas. Explicar isso a um estrangeiro é difícil mas os próprios indianos têm dificuldade de entender toda a complexidade na imensidão de castas, sem começar a falar de religiões e línguas em que vivem. A Índia é uma colcha de retalhos, é muitas nações em uma só e acabou sendo desenhada e redesenhada durante a história, desde as invasões arianas até os ingleses e as posteriores separações do Paquistão Leste (hoje, Bangladesh) e oeste (o Paquistão Paquistão).

Existe um trecho de “O Tigre Branco” do escritor Aravind Adiga, que ajuda a explicar, com boas doses de ironia, um pouco dessa dinâmica que foi mudando no último século.

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Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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Natal em Goa

“Se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa” ~ sabedoria popular

Na Europa, a região que ficou conhecida como a que provia especiarias por meio de Portugal, para depois cair na graça dos hippies e, depois, pelos clubbers com suas raves intermináveis, Goa hoje tem apenas uma cena decadente de cada um desses períodos. Destino predileto dos russos e britânicos exilados do frio e jovens israelenses, que viajam em bando logo após terminarem seus serviços militares, Anjuna e algumas outras praias ao norte do estado ainda concentram as festas. Ali, os senhores enrugados ostentando tranças, imensas tatuagens, manchas cancerígenas, tanguinhas e tantos outros artigos ridículos quanto couberem na imaginação, se misturam a grupos de indianos que estão bebendo pela primeira vez e que se jogam desorientados nas ondas sem saber muito como funcionam aquelas águas escuras. Debutam nos caixotes e na forte correnteza anunciada em bandeiras vermelhas, muitas vezes completamente vestidos. Não deixa de ser divertido ficar observando famílias inteiras sendo jogadas de volta à costa, tossindo água, comendo areia. As mulheres vão com seus saris. Os homens, com roupas que vão de simples cuecas velhas a trajes completos: camisas sociais e calças jeans. Riem e aproveitam aquilo como o paraíso. E é.

O paraíso é isso. Beber e entrar em uma máquina de lavar.

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Arte erótica em Khajuraho

Em um dia quente de 1830, uma expedição do engenheiro inglês T. S. Burt chegava a um pequeno vilarejo em Madhya Pradesh, um dos estados centrais da Índia – que, na época, ainda contava com as terras do atual Paquistão e Bangladesh. O pequeno grupo, além de provimentos básicos para os próximos dias, carregava alguns livros antigos de historiadores e de viajantes da região. Hospedaram-se na cidade de Chhatarpur com intenções de conhecer o vilarejo de Khajuraho. Ali, no meio daquele matagal, longe de qualquer centro urbano, devia haver um grupo de curiosos templos. Era o que diziam os relatos do marroquino Ibn Battuta, de 1335, por exemplo.

… perto dos templos, que contêm ídolos mutilados pelos muçulmanos, vive um grupo de iogues que deixam seus cabelos crescerem ao tamanho de seus corpos. E devido a esse ascetismo extremo, todos têm uma cor amarelada. Muitos muçulmanos visitam esses homens em busca de ensinamentos de ioga.

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Tudo o que a gente não sabe sobre os números

“Peraí, os números arábicos não são usados pelos árabes?”, foi meu susto em um aeroporto em Riade, capital da Arábia Saudita. Sabia que muitos países na Ásia, incluindo o sudeste e a região da Índia, não usavam o sistema. Mas pra mim número arábico era número A-RÁ-BI-CO! Santa ignorância. E quanto mais pesquisei, mais buracos nessa história encontrei [vendo rimas ruins para financiar viagem].

5.a.m. no aeroporto de Riade, acordando em uma cadeira do Starbucks.

Pra quem não lembra da primeira aula de matemática, os números arábicos (também chamados de indo-arábicos) são a maneira mais comum de representação de números hoje em dia. Mas essa história está mal contada. Quanta desilusão.

“É melhor, claro, saber de coisas inúteis do que não saber de nada” – Lucius Annaeus Seneca (sec. I)

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