Os donos da palavra

Dá um orgulho esse negócio de não ter mais páginas no passaporte.

Foi na capital do Timor Leste, Díli, que descobri: teria que trocá-lo ou já não haveria como entrar em outros países. Para minha sorte, o Brasil ainda mantém relações muito próximas com o país, que tem o português como uma das línguas oficiais. A embaixada era logo ali do lado da casa de um amigo, onde fiquei hospedado.

Num dia quente – todos os dias são dias quentes em Díli – saí e fui lá resolver o pepino tão bem-vindo. “Um passaporte cheio”, apreciava, girando as páginas na mão, como uma criança ao completar um álbum de figurinhas. Conversava com o responsável pelas atividades culturais da embaixada, o Gilberto Gasparetto, também músico, compositor, ator e detentor de muitas histórias. Sua mulher, também brasileira, dá aulas de português. Falávamos sobre a apresentação de um documentário há alguns dias atrás sobre o Manoel de Bandeira, trabalho feito pelo jornalista Claudio Savaget. O Claudio apareceu logo depois. Simpático, falava empolgado de sua nova empreitada: ir ao interior de Maubisse e documentar os lian nais (donos da palavra). Em um movimento de íntimos amigos do passado, esticou o braço ao meu ombro: “não quer ir não, Gustavo? Você vai amar!”.

Claro! Eu ia amar.

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A psicologia dos vulcões

Vulcões são insensíveis às veleidades humanas, ridículas. Quem liga se uma cidade inteira vai queimar e ser acobertada por uma saraiva de cinzas? E os moradores que vão perder suas casas ou vidas ou filhos, amantes, penteadeiras, as noites bem dormidas? E os cãezinhos? Vulcões têm outra ética, outra substância, ignoram o que há ao redor. No mundo, digo, nesse mundo, não há inocência. E quem disse que ser enterrado em magma, saliva da Terra, pó derretido, quem disse que isso faz mal aos cãezinhos? E nós dormimos, dormimos por anos. Um trabalho que não é fácil, quando seguramos o firmamento por um lado – não é só o Atlas – e a torrente de lava por outro até que fique insuportável, até não cabermos em nós mesmos e transbordamos docilmente em orgasmos. E há quem pense em nós? Somos muito úteis, poucos reconhecem.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cada um de uma cor.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cores bizarras.

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Wanted

Acabei de entrar correndo em um restaurante chique. Pedi um iogurte grego com frutas. A primeira coisa que veio aos olhos. Zero vontade. Ainda não sei o que fazer.

Hoje despertei tarde, depois de tantas noites mal ou não dormidas em que passei andejando por caldeiras e vulcões de Java (merecerão um texto à parte). Tomei café da manhã, que teve gosto de almoço porque veio com arroz, e saí com a moto alugada nesses dias para vaguear por uns campos de arroz aqui perto. Gosto de terraços de arroz, falei?

Há uma rua principal no centro de Ubud, em Bali, que é uma cilada para turistas. Alguns trechos se tornam, de hora pra outra, via de mão única. Vi os sinais mas os outros motoristas continuavam a cada um desses trechos ignorando o aviso, coisa que não é de impressionar quando se trata de Indonesistão. Resolvi seguir e a Sorte, entidade essa que distribui desgraças e bilhetes premiados dia sim e dia sim, me regalou um policial em busca de muitas coisas, como todo ser humano, e também uma pequena fatia do meu orçamento. Enquanto passava o sermão, o filme rodava na caixinha, “ele vai pedir propina”.

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Joguinho português-malaio-indonésio

Os portugueses foram de uma ambição obscena lá pelos 1500 e 1600, a gente já sabe e já falei sobre isso num longo texto chato aqui. Mas agora, por esses lados (estou na ilha de Java), está caindo a ficha de que o império e as influências foram ainda maiores do que eu esperava. Vê só, as línguas da Malásia e da Indonésia são muito similares. E daí que nos dois países eu tenho encontrado palavras pra lá de familiares. Vai aqui uma listinha, tenta descobrir o que significa. Um ponto pra cada acerto, valeeeendoooooooo!

almari

baldi

bangku

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