Meu aniversário em Teerã

Cheguei a Teerã de madrugada. Comprei um cartão de celular no próprio aeroporto e entreguei-o para o taxista entender como chegar à casa do meu anfitrião. No caminho, trocamos ideias em inglês e espanhol. Antes de virar taxista, Farhad tinha vivido em outros países. Atentei para o fato de que ele começou a viver na Espanha em 1982, pouco depois da Revolução de 1979 e a Guerra entre o Irã e Iraque, mas não tivemos tempo de aprofundar a história. Pooria me esperava às 5 da manhã na porta de casa, com seu celular à mão, bermuda e chinelo. Sorriu e acenou quando viu o carro virar a esquina. Mostrou-me a casa espaçosa rapidamente, o “meu” quarto e sentamos para conversar um pouco antes de dormir. Já amanhecia. Pooria acabava de voltar de uma festa, sentia já um pouco da ressaca que o atacaria no dia seguinte.

– Pode beber aqui, é?
– Não, mas todo mundo bebe.

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Daniela Mercury, a Grande

Era o ano de 330 AC. Foi com sangue nos olhos que Alexandre, O Grande, invadia, destruía, queimava e roubava sem pudor a famosa joia do deserto, que os gregos nomearam como cidade dos persas, Persépolis. O nome original: تخت جمشید Takht-e Jamshid (“o trono de Jamshid”).

Contou-me um comerciante local que a história segue assim. Chegando ao topo da montanha mais próxima, o imperador riu, soberbo. Falava sozinho, especulando sobre seus novos títulos. Passava a mão sobre a barba, pensativo: “xá da Persia… ou xá da Ásia. Alexandre Magno, xá da Ásia. Gosto disso!”. Gargalhou amalucadamente. Silenciou de súbito. Relembrou por instantes, vingativo, a destruição de tantas cidades helênicas. Seu rosto se fechava, exibindo olhos semicerrados e a arcada trincada à medida que seus pensamentos voltavam à acrópole em chamas.

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Internet no Irã

Publicar daqui do Irã não é fácil. Além das redes de wifi não serem das melhores, poucas coisas são liberadas para acesso pelo governo. Entre elas, Whatsapp, Viber, Skype e Instagram.

Já Youtube, Facebook, Twitter, WordPress (a base desse blog) e páginas de jornais internacionais, nem pensar. O jeito é instalar uma VPN, um processo fácil que faz com que seu acesso seja feito por servidores de outros países, mas que deixa a conexão ainda mais devagar. Descobri que o país dos rigorosos e barbudos aiatolás é também o que menos respeita suas próprias regras – de vestimenta, restrição de álcool e outras drogas, comportamento entre homens e mulheres ou pessoas do mesmo sexo, família, música, leis de trânsito, acesso à informação…

Com isso publicar no blog e viajar ao mesmo tempo é super possível mas extremamente difícil. Ao voltar a Teerã, onde a internet costuma a ser melhor, prometo novos textos e fotos. Histórias não faltam e o Irã é desses países cheios de surpresas e muito mal compreendido por quem está de fora (incluam-me entre os ignorantes). Não é um país “preto no branco”, como nenhum é, mas uma sociedade hipercomplexa, cheias de matizes, diferenças de crença, etnias e visões políticas.
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No momento, estou no verão de Isfahan, uma cidade moderna, agradável, mesmo com o calor, e com dezenas de prédios históricos, incluindo a segunda maior praça do mundo, Naqsh-e Jahan (só fica atrás da famosa Tiananmen, de Mao Tsé Tung, em Pequim). Em seguida sigo para o sul, Yazed, Shiraz, Persépolis e “vou-me embora pra Passárgada”, é claro, onde Ciro, O Grande, o primeiro grande líder do Império Persa, está enterrado. Depois é voltar pro norte e começar a preparar meus próximos vistos para Turcomenistão, Uzbequistão e por aí vai.

Então, uma pequena pausa forçada e até logo. Enquanto isso continuo publicando meia dúzia de fotos no Instagram (@gustborged), Facebook e Twitter. É o que tem pra hoje.