A psicologia dos vulcões

Vulcões são insensíveis às veleidades humanas, ridículas. Quem liga se uma cidade inteira vai queimar e ser acobertada por uma saraiva de cinzas? E os moradores que vão perder suas casas ou vidas ou filhos, amantes, penteadeiras, as noites bem dormidas? E os cãezinhos? Vulcões têm outra ética, outra substância, ignoram o que há ao redor. No mundo, digo, nesse mundo, não há inocência. E quem disse que ser enterrado em magma, saliva da Terra, pó derretido, quem disse que isso faz mal aos cãezinhos? E nós dormimos, dormimos por anos. Um trabalho que não é fácil, quando seguramos o firmamento por um lado – não é só o Atlas – e a torrente de lava por outro até que fique insuportável, até não cabermos em nós mesmos e transbordamos docilmente em orgasmos. E há quem pense em nós? Somos muito úteis, poucos reconhecem.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cada um de uma cor.

Lagos de Rotorua, na Nova Zelândia: cores bizarras.

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Ele existe!

Vim até Bornéu, aquela ilha que tem no tabuleiro do War, só pra vê-lo. E tive sorte. Não que seja muito complicado encontrar aqui o macaco proboscídeo – mais conhecido como macaco narigudo na minha roda de amigos. Mas o bichinho é tímido, o que torna complicada qualquer tentativa de aproximação no meio da selva.

Foi em uma das primeiras incursões à floresta que encontrei essa figura, no Parque Nacional de Bako, na parte malaia da ilha de Bornéu. Para os cientistas, nasalis larvatus. Para os malaios, bekantan ou o simpático codinome monyet belanda (macaco holandês). Como a Malásia foi ocupada por portugueses, holandeses, britânicos e japoneses, o povo daqui resolveu que o macaco narigudo com suas feições rosadas e barrigas protuberantes pareciam mais com os holandeses. Piadas racistas da época.

Macaco probscídeo dando um rolê

Macaco probscídeo (fêmea) dando um rolê

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Elogio ao ócio e à pescaria

No Sri Lanka, estou entregue à auto-indulgência. Perdão pelos dias sem fazer nada, pelo estouro no orçamento, pela preguiça, pela gula, pelo livro não lido, pelo post perdido, pela cidade não visitada. Perdão aos homens de preto por não ter feito a minha parte e, mesmo que não o receba, não me importo. A clemência, aqui e agora, vem automática, porque tem praia e água de coco por perto. Eu me perdoo.

É nessa que me dei ao direito de experimentar a inércia extrema. Ir até a praia e voltar para comer, dormir, balançar pro céu em uma rede.

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Por que ir ao Afeganistão. E por que não.

Sempre tive muita curiosidade e me coço inteiro só de pensar na possibilidade de ir ao Afeganistão, um dos países mais bonitos naturalmente e recheado de história, a começar pelo fato de estar no centro da Rota da Seda. Ali cruzaram centenas de civilizações e essa é até hoje a maior riqueza da região e, talvez, também um dos fatores que levaram à agonia que os afegãos vivem hoje. Então, para começar: por que não ir? A situação é realmente ruim e não vale a pena se arriscar. Essa, no entanto, é a única razão que consigo encontrar: guerra e, consequentemente, extrema pobreza. É uma razão forte. Mas quando a situação melhorar, não pensarei duas vezes. Agora…

Por que ir ao Afeganistão?

O texto abaixo é uma tradução livre de uma resposta do usuário Hadayat Seddiqi, na rede-social-cabeça Quora. Ele é perguntado sobre O que todo mundo deveria saber mas ninguém sabe sobre o seu país?. Aí vai a resposta e leve em consideração que: 1) as opiniões são dele; 2) trata-se de uma pessoa nascida no Afeganistão que se mudou para os EUA com menos de 1 ano mas ainda mantem relações com o país, pois possui familiares lá.

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Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

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Você nunca viu uma árvore como essa

Uma árvore que fala pode trazer nova luz à ciência moderna.

Você nunca viu uma árvore como essa.

A foto foi tirada em Vardzia, um dos locais mais sagrados da Geórgia. Lá encontram-se mais de 140 cavernas nos paredões que fazem parte de um vale incrível. São casas e igrejas, com afrescos que datam do século XII, usadas por monges cristãos que fugiram de invasões otomanas e persas.

O que mais impressiona aqui, no entanto, é uma estranha árvore, onde as flores nascem diretamente de sua casca. Não é só isso. Raros fenômenos relacionados à planta atraíram neste ano cientistas de 23 países. Continuar lendo

Berbera

Berbera. Nome exótico esse. Ber-be-ra. Lembra especiarias, tecidos, mirra. Homens vão e voltam das suas embarcações, desembarcam grandes caixas acompanhadas de ratos. Alguns se dedicam a pesar os produtos à beira do porto. Berram, negociam, brigam, às vezes lutam entre si e sangram e são calados sempre pelo barulho do mar ao anoitecer.

Berbera, em 1896A foto data de 1896, está no arquivo do Field Museum, em Chicago. Nome da expedição: Africa Expedition; participantes: D.G. Elliot and Carl Akeley; motivo da viagem: zoologia mamífera. Material original: lâmina colorida a mão.

Uma foto hoje não sai diferente.

Berbera. Parece que enquanto o resto do mundo se transformava em hoje, aqui o tempo decidiu ficar pra trás, pirraçou, e o vilarejo dormiu. Que nada! Berbera foi um porto movimentado desde a antiguidade, ali de frente pra Arábia, basta atravessar alguns quilômetros de mar, o golfo de Aden.

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