Os donos da palavra

Dá um orgulho esse negócio de não ter mais páginas no passaporte.

Foi na capital do Timor Leste, Díli, que descobri: teria que trocá-lo ou já não haveria como entrar em outros países. Para minha sorte, o Brasil ainda mantém relações muito próximas com o país, que tem o português como uma das línguas oficiais. A embaixada era logo ali do lado da casa de um amigo, onde fiquei hospedado.

Num dia quente – todos os dias são dias quentes em Díli – saí e fui lá resolver o pepino tão bem-vindo. “Um passaporte cheio”, apreciava, girando as páginas na mão, como uma criança ao completar um álbum de figurinhas. Conversava com o responsável pelas atividades culturais da embaixada, o Gilberto Gasparetto, também músico, compositor, ator e detentor de muitas histórias. Sua mulher, também brasileira, dá aulas de português. Falávamos sobre a apresentação de um documentário há alguns dias atrás sobre o Manoel de Bandeira, trabalho feito pelo jornalista Claudio Savaget. O Claudio apareceu logo depois. Simpático, falava empolgado de sua nova empreitada: ir ao interior de Maubisse e documentar os lian nais (donos da palavra). Em um movimento de íntimos amigos do passado, esticou o braço ao meu ombro: “não quer ir não, Gustavo? Você vai amar!”.

Claro! Eu ia amar.

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Joguinho português-malaio-indonésio

Os portugueses foram de uma ambição obscena lá pelos 1500 e 1600, a gente já sabe e já falei sobre isso num longo texto chato aqui. Mas agora, por esses lados (estou na ilha de Java), está caindo a ficha de que o império e as influências foram ainda maiores do que eu esperava. Vê só, as línguas da Malásia e da Indonésia são muito similares. E daí que nos dois países eu tenho encontrado palavras pra lá de familiares. Vai aqui uma listinha, tenta descobrir o que significa. Um ponto pra cada acerto, valeeeendoooooooo!

almari

baldi

bangku

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A loucura em forma de bunker

Durante os 40 anos de comunismo liderado por Enver Hoxha, a Albânia se especializou em ter medo de absolutamente tudo. Primeiro, a temida figura do Marechal Tito, chefão da Iugoslávia. Fazia algum sentido, visto que a Albânia figurava sozinha no mapa, encurralada pela Iugoslávia e Grécia. O próprio Tito sugeriu diversas vezes que o país faria mais sentido se fosse anexado por eles (#vemgente). O segundo motivo de preocupação, era a invasão de grupos fascistas no norte da Grécia. Vale lembrar também que a Itália de Mussolini ocupou o país também, fazendo-o um protetorado entre 1939 e 1943.

É, a Albânia tinha inimigos.

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Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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Natal em Goa

“Se alguém lançar uma pedra, em qualquer lugar de Goa, é quase certo que vai acertar num porco, numa igreja ou num Sousa” ~ sabedoria popular

Na Europa, a região que ficou conhecida como a que provia especiarias por meio de Portugal, para depois cair na graça dos hippies e, depois, pelos clubbers com suas raves intermináveis, Goa hoje tem apenas uma cena decadente de cada um desses períodos. Destino predileto dos russos e britânicos exilados do frio e jovens israelenses, que viajam em bando logo após terminarem seus serviços militares, Anjuna e algumas outras praias ao norte do estado ainda concentram as festas. Ali, os senhores enrugados ostentando tranças, imensas tatuagens, manchas cancerígenas, tanguinhas e tantos outros artigos ridículos quanto couberem na imaginação, se misturam a grupos de indianos que estão bebendo pela primeira vez e que se jogam desorientados nas ondas sem saber muito como funcionam aquelas águas escuras. Debutam nos caixotes e na forte correnteza anunciada em bandeiras vermelhas, muitas vezes completamente vestidos. Não deixa de ser divertido ficar observando famílias inteiras sendo jogadas de volta à costa, tossindo água, comendo areia. As mulheres vão com seus saris. Os homens, com roupas que vão de simples cuecas velhas a trajes completos: camisas sociais e calças jeans. Riem e aproveitam aquilo como o paraíso. E é.

O paraíso é isso. Beber e entrar em uma máquina de lavar.

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Por que ir ao Afeganistão. E por que não.

Sempre tive muita curiosidade e me coço inteiro só de pensar na possibilidade de ir ao Afeganistão, um dos países mais bonitos naturalmente e recheado de história, a começar pelo fato de estar no centro da Rota da Seda. Ali cruzaram centenas de civilizações e essa é até hoje a maior riqueza da região e, talvez, também um dos fatores que levaram à agonia que os afegãos vivem hoje. Então, para começar: por que não ir? A situação é realmente ruim e não vale a pena se arriscar. Essa, no entanto, é a única razão que consigo encontrar: guerra e, consequentemente, extrema pobreza. É uma razão forte. Mas quando a situação melhorar, não pensarei duas vezes. Agora…

Por que ir ao Afeganistão?

O texto abaixo é uma tradução livre de uma resposta do usuário Hadayat Seddiqi, na rede-social-cabeça Quora. Ele é perguntado sobre O que todo mundo deveria saber mas ninguém sabe sobre o seu país?. Aí vai a resposta e leve em consideração que: 1) as opiniões são dele; 2) trata-se de uma pessoa nascida no Afeganistão que se mudou para os EUA com menos de 1 ano mas ainda mantem relações com o país, pois possui familiares lá.

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Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

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Daniela Mercury, a Grande

Era o ano de 330 AC. Foi com sangue nos olhos que Alexandre, O Grande, invadia, destruía, queimava e roubava sem pudor a famosa joia do deserto, que os gregos nomearam como cidade dos persas, Persépolis. O nome original: تخت جمشید Takht-e Jamshid (“o trono de Jamshid”).

Contou-me um comerciante local que a história segue assim. Chegando ao topo da montanha mais próxima, o imperador riu, soberbo. Falava sozinho, especulando sobre seus novos títulos. Passava a mão sobre a barba, pensativo: “xá da Persia… ou xá da Ásia. Alexandre Magno, xá da Ásia. Gosto disso!”. Gargalhou amalucadamente. Silenciou de súbito. Relembrou por instantes, vingativo, a destruição de tantas cidades helênicas. Seu rosto se fechava, exibindo olhos semicerrados e a arcada trincada à medida que seus pensamentos voltavam à acrópole em chamas.

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O que há além da primeira mordida de chocolate na Costa do Marfim

A Costa do Marfim, apesar de pequena, é a maior produtora de cacau do mundo, mas nem por isso os fazendeiros de M’Bato, uma pequena aldeia dentro do país, conheciam essa maravilha. O correspondente da holandesa Metropolis TV, Selay Marius Kouassi, faz então a introdução e as reações são emocionantes.

O vídeo repercutiu bastante na internet nos últimos dias e é realmente incrível. Mas há um pano de fundo não muito animador na história toda.

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Dia de fúria em Skopje

Cheguei em Skopje, capital da Macedônia, por volta das 20h e fui andando até o hotel. Costumo usar o Google Maps que, dessa vez, me jogou longe do meu alvo. Completamente perdido, pedi ajuda em uma padaria/boteco onde dois sujeitos conversavam na porta. O macedônio também tem palavras em comum com o russo e com qualquer outra língua eslava, então a comunicação fluiu na medida do possível. Os dois riam muito de um brasileiro perdido na Macedônia em plena Copa do Mundo 2014. Ri junto.

Perguntaram-me se era da Al-Qaeda ou de algum grupo terrorista e, na negativa, correram então para um Lada velho e me apontaram: “levamos você até lá”. Como nossos pais ensinaram: “não se deve entrar em carro de estranhos”. Entrei. Eles também se perderam. Falavam de Feitosa e um outro sujeito brasileiro, aparentemente mestres do jiu jitsu – desculpem a ignorância. Fingi que conhecia.

“Neymar quem? Fei-to-sa!”, dizia o sujeito forte no banco de trás.

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