Pirataria à moda portuguesa

Tempo de leitura: aproximadamente 9 minutos.

Voltimeia esbarro num local por onde passaram grandes nomes da navegação portuguesa. Esse povo aventureiro, melancólico, de bigodes e ambições ímpares (exageros meus) nasceu de costas pra Europa e saiu por aí, flutuando em superfícies crespas, fartas e imprevisíveis, para encontrar o pote de ouro. Nada de novo na história do mundo. Os gregos fizeram o mesmo, os persas, os polinésios, os chineses, os árabes, os otomanos. Talvez a diferença esteja no fato de que os gregos e portugueses conseguiram fazer do mar poesia.

Não. Isso também não é nenhuma particularidade deles. Na história do mundo, nada parece novo, nada saído do zero. O importante é que nesse momento, espíritos lusitanos sobrevoam o Mar Vermelho desdenhando dos piratas somalianos: “quero ver é fazer isso aí com uma caravela de madeira rota, bróder“. Ao que os somalianos respondem: “a gente não acredita em espíritos”. E fica por isso.

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

Patrulha norte-americana no Mar Vermelho, na costa do Djibouti (ex-Somália Francesa)

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Berbera

Berbera. Nome exótico esse. Ber-be-ra. Lembra especiarias, tecidos, mirra. Homens vão e voltam das suas embarcações, desembarcam grandes caixas acompanhadas de ratos. Alguns se dedicam a pesar os produtos à beira do porto. Berram, negociam, brigam, às vezes lutam entre si e sangram e são calados sempre pelo barulho do mar ao anoitecer.

Berbera, em 1896A foto data de 1896, está no arquivo do Field Museum, em Chicago. Nome da expedição: Africa Expedition; participantes: D.G. Elliot and Carl Akeley; motivo da viagem: zoologia mamífera. Material original: lâmina colorida a mão.

Uma foto hoje não sai diferente.

Berbera. Parece que enquanto o resto do mundo se transformava em hoje, aqui o tempo decidiu ficar pra trás, pirraçou, e o vilarejo dormiu. Que nada! Berbera foi um porto movimentado desde a antiguidade, ali de frente pra Arábia, basta atravessar alguns quilômetros de mar, o golfo de Aden.

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A linha invisível entre Etiópia e Djibouti

Leitura: 7 minutos. Senta que lá vem a história.

Ao chegar em Dire Dawa, leste da Etiópia, ouvi a notícia de que o trem que leva ao Djibouti tinha sido reativado. Não funcionava todos os dias da semana, mas era uma opção boa para quem não quer enfrentar os solavancos de um ônibus atravessando o deserto.

Uma jornada que podia levar de 12 a 20 horas dependendo das paradas e procedimentos na fronteira. “Se o trem não tiver nenhum problema, você pode chegar lá às 18h”, me avisava o vendedor do bilhete, radiante. “Sai às 3 horas da manhã”, completou.

A cidade estava sem luz. O hotel não tinha mais água. Tomei um banho de cuia às escuras. Uma ratazana atravessava a luz amarela projetada pelas velas no chão do hotel. Chovia um pouco lá fora. Resolvi não sair para comer e dormi cedo. Às 2h30, levantei-me depressa, deixei as chaves na bancada e fui para a estação.

Não havia ninguém. Continuar lendo